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Precisamos de prazer

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 02.04.2001

Hoje li um artigo interessantíssimo no Null Device acerca da importânica do prazer, e que subscrevo inteiramente. O prazer, ou aliás, os prazeres (não confundir com o prazer sexual), estão em crise. Hoje em dia os media, os legisladores, a sociedade em geral fizeram do prazer o principal alvo a abater, obedecendo a um neo-puritanismo repugnante, recorrendo à Bíblia e ao Corão como instrumentos de poder.

Se bem que a situação seja bem mais grave nos países islâmicos, a verdade é que emergem Talibans cristãos por todo o lado, chegando ao cúmulo de haver padres católicos que pretendem censurar a própria Bíblia a bel-prazer (pois o Velho Testamento alegadamente tem um conteúdo sexual explícito).

O que poucos entendem é que o prazer - aliás, os prazeres são o sistema regulador da nossa própria existência, a recompensa que devemos aceitar por estarmos vivos e termos emoções. Ao rejeitar os prazeres estamos a rejeitar as emoções. Ao abraçar o hedonismo (vulgarizando o invulgarizável) fazemos o mesmo. É mais fácil roubar, violar, matar, cometer genocídio a quem foi privado, se privou deliberadamente ou vulgarizou (como os Romanos) todos os prazeres. Como pode a opinião pública ter ficado impassível às notícias de violações constantes feitas por padres católicos missionários em África?

Vivemos num mundo em que as crianças são ensinadas identificar o prazer com o Mal, com as consequencias que daí advêm - ou se tornam seres cinzentos ou hedonistas, em ambos os casos sem verdadeiras emoções. Os adultos iludem-se sentindo prazer apenas com as coisas que a sociedade admite e impõe - a condução de um carro de luxo, por exemplo. Não digo que nos devamos entregar ao hedonismo, o prazer não é uma profissão. O verdadeiro prazer é a excepção, a recompensa, nunca algo que se compra ou que se consegue abdicando das emoções. Vivemos num mundo em que os prazeres são reprimidos (logo a felicidade, pois pode haver algum prazer sem verdadeira felicidade, mas nunca felicidade sem prazer), e se enaltecem valores menores como o dinheiro ou a carreira/rotina. Não há maior prazer que o da criação e da constante novidade! Há gente que se revolta com o uso da palavra 'prazer', e tal facto provoca-me um arrepio na espinha.

Quando Bush II chegou ao poder falei numa Idade das Trevas, numa Era Neo-Medieval. Pois não foi mera força de expressão. Adolf Hitler foi produto de uma mentalidade algo semelhante dos finais do séc. XIX, oscilante entre excessos e a rigidez vitoriana, necessitando apenas de uma crise económica para se erguer. É provável que um novo Hitler, fruto deste envenenamento das mentalidades, já tenha nascido.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012