Arquivo Cafeína

Purtogês (sic)

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 06.06.2001

Se alguns realmente sabem aquilo que querem da vida, outros, como eu, têm uma imagem algo difusa. No meu caso, foi o combinar de certas coisas que gostaria de fazer com outras para as quais acho que tenho jeito que me levou a optar por entrar para um certo curso superior no próximo ano lectivo. Para tal, tenho que mais uma vez fazer alguns exames nacionais do 12º ano, e de momento ando a estudar matérias que há alguns anos pensei que nunca mais iria ter que ver à minha frente na vida.

Eis que uma imagem se torna nítida: Há algo de que definitivamente não gosto - deste Português que ensinam no Secundário que, a avaliar pela matéria que tenho que estudar, piorou desde que acabei o liceu. O Português que tenho que saber - o Português B, o Português 'light' para quem irá seguir uma carreira que nada tem a ver com línguas - nada tem de Português, a não ser o facto de ser esta a língua em que iremos responder ao exame. Chamem-lhe 'Literatura'.

Porquê tanta revolta então? É simples: nunca aprendi a escrever uma carta comercial (quer dizer, aprendi mas em aulas de Inglês!). Nunca aprendi a fazer uma acta direito (uma nota de rodapé no programa do liceu não chega!). E pior, nunca, a nível do Secundário, tive qualquer aula dedicada à escrita, à escrita criativa. E quando a aprender coisas como conduzir ou responder a entrevistas e moderar debates, ou ter aulas de dicção, só mesmo em sonhos. Não, não interessa a ninguém promover o bom uso da língua Portuguesa. O que interessa é saber interpretar umas tretas do Saramago e dum tal Sttau Monteiro que ninguém conhece.

Imaginem que frequentavam um curso de pintura onde são obrigados a saber tudo sobre vários pintores do século XX, isto sem nunca chegarem a ver uma tela à vossa frente, chegando ao fim sem terem pintado um único quadro. Já fazem uma ideia. Estes programas de Português apenas contribuem para formar uma geração de pseudos (na melhor das hipóteses), pessoas que encarnam o conceito de muita parra e pouca uva, ou seja, gente com montões de conhecimentos sobre o Virgílio Ferreira mas incapazes de se desenrascar na hora de escrever uma carta à DECO (já repararam como aqueles livros contendo cartas já feitas vendem?).

Podem dizer que tais programas estimulam os hábitos de leitura em Portugal. Pois, vê-se. Ao forçarem os alunos a estudar algo que não querem, estão apenas a impedir que mais tarde desenvolvam um gosto na literatura por iniciativa própria. E entretanto vamos continuando a ler jornais cheios de erros...

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012