O automóvel é uma droga
"All we want is to be free, all we want is to be free..." é o refrão de um tema dos Tranquility Bass, com um cheirinho de blues e de gospel, que se fazia ouvir vindo do meu auto-rádio. E eu estava parado no trânsito e a entrar em desespero, algures na Zona Industrial ainda longe da entrada na VCI.
Andar de carro durante o dia é contra os meus princípios. Porém, hoje tive que ir a uma consulta na Cidade Que Não Existe (Vila Nova de Gaia), onde os benfeitores das empresas de camionagem impediram o futuro Metro de ir para lá de Sto. Ovídio e onde o serviço dos STCP é mantido bem pior que a mais desesperante das viagens de automóvel. Além disso, ainda tinha que ir ver se punha a minha máquina fotográfica para arranjar, o que significava uma ida à Zona Industrial, perto do Norteshopping.
A ida a Gaia não correu mal. Mais a partir daí foi de mal a pior. Quando acabo por passar 15 minutos à porta de casa, simplesmente à espera que a fila se mexa uns metros para estacionar, sinto-me como os Estados Unidos: apetece-me ir ao focinho a alguém, sem saber exactamente a quem.
"Set us free..." Certas pessoas que conceberam as nossas ruas e estradas deviam estar presas. Como é possível que os acessos às autoestradas sejam tão largos para depois afunilarem antes de entrar? Será que ninguém pensou que isso só ia causar uma luta entre automobilistas e mais problemas e atrasos? Como é possível que certas ruas tenham prioridade sobre outras com grandes problemas de trânsito? E como é que é possível que tal como no Reino Unido, em Portugal as filas se formem à esquerda e se ultrapasse pela direita?
"All we want is to be free... O problema é que mesmo que resolvessemos isto, resolvessemos a falta de civismo, obrigássemos as cargas e descargas a serem feitas de noite como nos países civilizados, pouco adiantaria. Em cidades onde se anda mais devagar agora que há 100 anos, só acabando com a circulação automóvel no centro é que será possível chegar a algum lado. É simples: menos carros, mais e melhores transportes públicos, tudo anda mais rápido e todos ganham. É apenas uma questão de fazer algo a sério e permanente em vez de Dias sem Carros frouxos.
Mas como convencer as pessoas a deixarem de andar de carro. Esta é que é a parte verdadeiramente difícil. A maioria só deixará o carro à bofetada, e algumas nem assim. Esta dependência deveria ser considerada uma doença. Mas há quem precise? Claro que há! Mas basta ver: quantos carros circulam com mais de uma pessoa? Quantos carros fazem percursos pequenos? Quantos fazem percursos já feitos por um autocarro? Imensos. Sâo estes os contornos de uma ditadura da maioria que prejudica todos.
Set us free...