Pinóquio moderno
O facto de ser Steven Spielberg a pegar em AI: Inteligência Artificial - inicialmente um projecto do falecido Stanley Kubrick - não me cheirava bem. De Kubrick tivemos o HAL de 2001: Odisseia no Espaço, e esperar-se-ia uma criação igualmente dramática. Spielberg optou pela via da personificação e de um filme 'para toda a família', transformando o megalítico HAL num 'miúdo querido'. Este conceito cheirava-me a estética Disney, e eu estava preparado para reprovar este filme. Mas de algum modo, Spielberg safou-se. Nota: no artigo discuto o argumento mas sem estragar a história.
Começando pela própria estética, talvez o ponto mais forte do filme. A estética é fenomenal. Os mais pequenos aparelhos estudados ao promenor sem terem o aspecto de 'gadgets' foleiros de outros filmes (excluindo o desnecessário helicóptero-submarino), o clima violento da Feira de Destruição, os neons estilo 'neo-Vegas' de Rouge City, toda a fauna robótica, o urso Teddy (roubadinho ao Sebastian do Bladerunner), a visita ao Dr. Know, a Manhattan semi-submersa e a supreendente panorâmica da mesma Manhattan no ano 4000. Mesmo as criaturas pós-humanas do final são surpreendemente aceitáveis, se bem que seja algo intrigante que os descendentes dos primeiros robots conservem a forma humanoide, demonstrando eles capacidades fenomenais de manipulação do espaço. Mas mesmo com estas pequeninas falhas mais devidas ao argumento, toda a estética é excelente.
O problema surge, portanto, no argumento. E o problema reside em ser uma história demasiado banal em termos de ficção científica. É o robot que quer ser humano. É o robot que quer amar. De formas diferentes, filmes como Metropolis, 2001 ou Bladerunner abordam o mesmo tema de uma forma a meu ver superior. É que se o argumento tem pontos de interesse (como o mundo no ano 4000, um dificílimo exercício de previsão que passa com distinção), também tem pontas soltas e partes muito fracas, em que nuns lados se perde com coisas sem grande interesse e francamente desligadas do principal da história, noutros deita tudo a perder com imbecilidades explicadas com um 'porque sim' (para dizer ao que me refiro teria que escrever aqui o final do filme).
Mas o maior problema do filme reside num imenso desajuste. No fundo, o mundo de daqui a 2000 anos convence mais do que o mundo de daqui a 100 ou 200. É que o filme está desactualizado. Isto é, é uma história que parece escrita nos anos 50 com a estética feita agora. Actualmente existem ensaios sobre a problemática da chamada inteligência artificial que insidem sobre a chamada Singularidade - a época em que o ser humano perderá o controlo -, e fariam um material bem mais interessante para este filme do que uma variação sobre os chavões de Isaac Asimov.
Tal como outros, este filme talvez venha a ser considerado um clássico. Mas sê-lo-à por Gigolo Joe, pelo urso Teddy, pelas criaturas do ano 4000 ou pelos néons de Rouge City (afinal, Bladerunner é o que é graças aos néons). Nunca pelo argumento e as suas cansativas referências a Pinóquio, ou pelo personagem principal, que talvez afinal seja mais artifical que humano. Nota: B+