O Jogo Da Nossa Vida
Recordo o pequeno Spectrum 48k, portentosa máquina na qual se faziam verdadeiros sacrifícios para qualquer jogo. Sacrifício, uma vez que cada jogo necessitava de tempo para carregar - falo de tempo entre meia a uma hora! - sempre correndo o risco de o dito cujo ir abaixo quando faltavam apenas alguns segundos, e nunca esquecendo que para passar para o nível seguinte, ou sempre que as letras "Game Over" apareciam no ecrã, lá se voltava ao martírio de carregar o jogo...
Mais tarde, veio o 386, uma BOMBA com os 2Mb de RAM e 33Mhz! Era o tempo dos clássicos, os jogos que viriam a definir quase todos os géneros actuais, entre Prince of Persia - precursor de um qualquer Tomb Raider; Wolfenstein 3D - o avô de Quake; Dune II - o primeiro jogo em estratégia real, ainda antes da vinda de Command and Conquer; Secret Of Monkey Island; Street Fighter II; Sensible Soccer; Flashback; U.F.O. Novamente, era necessário um verdadeiro martírio para qualquer jogo ser instalado e jogado - com apenas 40 Mb de disco disponíveis, todo o espaço estava constantemente ocupado, sendo necessário apagar algo para dar entrada ao novo. No meio de tudo isto, as disquetes eram as salvadores, excepto quando alguma se estragava...
E aconteceu, um belo dia, que fiquei sem PC durante vários anos. E desliguei-me por completo do mundo dos jogos. Claro, sempre havia uma máquina no salão de jogos, ou um duelo na consola de um amigo, mas isso era só para os momentos sociais.
Quando finalmente consegui o novo PC, experimentei novamente uma entrada no universo dos vídeo-jogos... mas descobri que algo mudara. Sim, os gráficos eram agora reproduções 3D do mundo real. Sim, o som era Dolby Surround, puro, digital. Um portento para os sentidos... mas, infelizmente, não para a imaginação. Actualmente, todos os jogos parecem reciclar-se, com sequelas, de sequelas, de sequelas. Neste cenário, apenas os que apresentam maior nome - Quake, Tomb Raider, Final Fantasy - ou melhores campanhas de marketing parecem sobreviver.
Não sei se a indústria irá impôr a si própria restrições para travar esta tendência, ou se, à semelhança de algumas das menores, os próprios fãs se irão desligar. Mas eu, pessoalmente, desliguei-me (quase) por completo do actual panorama. O futuro passa pelo passado, e pela busca dos ROMs das velhinhas Mega Drive ou Super Nintendo. Claro, neste sistema o Sonic não apresenta gráficos 3D, perspectiva, iluminação, efeitos de luz. Mas apresenta, sim, uma grande DIVERSÃO!