Arquivo Cafeína

O Vizinho

'Cyberpunk' — 29.12.2001

Tinha aquela mania : ao fim do dia, ao mesmo tempo que o astro-rei desaparecia para outras latitudes, vinha para a janela qual virgem à espera das escadas de corda de um imaginado amante e observava as correrias e azáfamas dos últimos vizinhos a recolher às suas conchas.

Um dia, porém, sentiu-se incomodado pela insistência com que o vizinho do prédio em frente o fitava, imitando-o em todos os seus gestos.

Meteu o dedo no nariz, na leve esperança de chocar o interpelante e de, com isso, o afastar da janela. O outro, maquinalmente, reproduziu o gesto com toda a infinidade de promenores: não só o dedo tinha a mesma rigidez provocatória, como também a reprodução do sorriso trocista e cínico demonstrava um estudo exaustivo do imitado.

Fechou a janela irritado com o que via. Deitou-se mas não conseguiu adormecer. A imagem do outro, do vizinho da frente a repetir-lhe os gestos, não lhe saía do pensamento.

Levantou-se, foi até à janela e afastou cuidadosamente a cortina como sempre vira fazer naqueles "thrillers" a preto e branco. Quando espreitou, apercebeu-se de que do outro lado, também de cortina sorrateiramente afastada, um olho furtivo o fitava.

De imediato saltou para trás e correu até à cozinha. Após despejar três gavetas, encontrou o que procurava: um cutelo, enorme!, que utilizava uma vez por ano para trinchar o peru de Ano Novo.

Voltou à sala e abriu a janela. Do lado de lá, de janela aberta também, o outro empunhava um cutelo idêntico.

Pôs a mão esquerda em cima do parapeito e, com a força que lhe foi possível, desferiu um golpe rápido e eficaz que lhe decepou a mão à altura do punho.

Olhou em frente, a babar-se de raiva e riso, e comprovou as suas suspeitas: o outro imitara-o na perfeição e também agora se via privado da mão esquerda.

Sorriu ainda mais e foi seguido no sorriso pelo ocupante da janela em frente.

De repente sentiu-se envolvido por um desejo de vingança que nunca antes tinha sentido.

Sacou do Colt 38 que guardava como argumento dissuasivo de um qualquer assalto, apontou milimetricamente à sua própria cabeça, puxou o cão atrás, premiu sadicamente o gatilho imaginando a estupfacção do vizinho perante a obrigação de o imitar em tal acto definitivo e ouviu o estampido ensurdecedor da arma...

No dia seguinte o vizinho desceu as escadas, depositou no caixote do lixo um boneco enormemente mutilado com a etiqueta "The Hollywood Stunt Studios" e, com ar parcimonioso e condolente, foi com o resto da vizinhança até ao cemitério prestar-lhe as últimas homenagens.

CP

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012