Profissões
Adormeci tarde, naquela noite... O meu chefe estava a passar por um mau bocado em casa e todos nós estávamos a pagar por isso. Como tal, após ter lido algumas linhas de um dos jornais diários, senti que precisava dormir um pouco para me afastar de todos aqueles problemas.
Deveria ser a meio da noite que o telefone tocou. Alguém do outro lado da linha gritava dizendo-me que, uma vez mais, eu estava atrasado. "Estranho...", pensei eu, "Não era suposto eu estar em lado nenhum senão em casa..".
Mas, a voz continuou aos gritos...
Quando olhei para o calendário apercebi-me da razão de todo aquele alarido : era dia 25 de Março !!!
Vesti-me o mais rápido que me foi possível, esqueci-me até do relógio em cima do armário da cozinha, e voei directo para o automóvel.
Enquanto guiava àquela hora da madrugada não pude deixar de pensar no que diabo fizera quando aceitara aquele emprego. Não o tinha pedido e foi só para não envergonhar os meus pais que condescendi em aceitá-lo. Podia até ver, em pensamento, a cara séria de meu pai bem como as lágrimas que escorreriam pela face de minha mãe, sempre que me passava pela cabeça deixar aquele emprego.
"É demasiado tarde, agora..." , continuava eu a pensar, para afastar de mim aquelas faces de angústia e reprovação.
À minha frente encontrava-se agora um homem gordo de uniforme e que me perguntava pela minha identificação. Instintivamente, olhei para cima em sua direcção e ele afastou-se como se eu fosse o diabo em pessoa. Continuei a guiar através da vedação e dirigi-me para o parque de estacionamento à procura de um lugar vago quando, de repente, me lembrei que me bastaria deixar ali mesmo o automóvel, não importava onde, que um dos guardas viria prontamente a correr para o estacionar...
Após cerca de uma hora, que a mim me pareceu uma eternidade, estava finalmente a postos no meu lugar. À medida que o tempo teimava em passar, senti novamente aquela sensação de que nunca deveria ter aceite o emprego. Todavia, já não era tempo de pensamentos pois, caso eles fossem tão pontuais como sempre o eram naquelas situações, eu deveria estar pronto para corresponder às ordens do meu chefe...
Peguei no meu microfone e comuniquei que, de acordo com o que eu podia verificar no monitor em frente dos meus olhos, tudo estava sob controle. Foi então que uma voz, rápidamente por mim identificada como sendo a do meu chefe, soou nos meus auriculares e começou uma contagem decrescente : " Dez... nove... oito... sete... seis... cinco... quatro... três... dois... um !!!".
"Oh, meu Deus", pensei eu, "como pode ser tão sensaborona a vida de um astronauta..."
CP