Arquivo Cafeína

Três minutos de medo

'CyberPunk' — 23.01.2002

Noite típica do mês de Janeiro, fria, húmida com nevoeiro intenso. O único som que se distingue é o dos tacões dos meus sapatos, sobre a calçada romana e o tilintar das fivelas dos mesmos. Sinto uns arrepios intensos, talvez devido ao forte frio, puxado por uma pequena brisa que me gelava a cara.

Esta rua deu-me um medo momentâneo. É uma espécie de onda que vai e vem... não encontro explicação.
Eu até sou um homem que não tenho medo de quase nada, não tivesse eu passado pelos horrores da guerra em África, quase sempre debaixo de fogo intenso, o que nos faz ao fim de um certo tempo esquecer a palavra medo.
Mas hoje é diferente, um sexto sentido diz-me que algo desconhecido está para acontecer...mas o que será ?
O meu coração dá um salto repentino, um vulto negro tinha passado a correr de raspão pelas minhas pernas...que é aquilo?...Ah, um gato.
As minhas costas pareciam ter sido picadas por milhares de agulhas, o terror invadia-me a pouco a pouco, mas porquê ???
Resolvo parar debaixo de um candeeiro, meto a mão ao bolso e puxo do maço de cigarros.
Se calhar era isso mesmo de que eu estou a precisar, um cigarro.
Com as mãos trémulas puxo de um cigarro e colo-o aos lábios, enquanto o acendo com o meu inseparável Zippo.
Longa aspiração de fumaça e parece que tudo volta ao normal.
Que estupidez está a passar pela minha cabeça?
Medo? Mas medo de quê ?
Lá recomeço a minha caminhada, enquanto o nevoeiro se adensa mais e a rua fica mais escura, apenas se vê pequenas manchas de luz ao redor dos candeeiros.
Continuo a ouvir o eco dos meus sapatos pela calçada, e...
- Que vêm lá ao longe?
Pareceu-me distinguir ao longe um vulto que se dirigia no meu sentido, a sua sombra sobre a luz do candeeiro envolta no nevoeiro dava-lhe um aspecto tétrico.
Lá está mais uma vez o medo a apoderar-se de mim !
Mas que sensação horrível esta do medo e o vulto cada vez mais perto.
Consigo distinguir as suas feições. Rosto bastante magro, olhos grandes...mas de que cor são os olhos? Não consigo distinguir a cor mas sinto-os frios como o aço.
Aproxima-se de mim, olha-me... tenho os sapatos colados ao chão, não consigo mexer um só músculo do corpo.
Aproxima-se mais, sinto um respirar frio.
Já com a sua face encostada à minha sussurra:
- Dá-me lume ?
Que parvo tenho estado a ser com aqueles meus medos repentinos.
Afinal é apenas um homem vulgar, como eu e só quer lume para o seu cigarro.
Puxo do Zippo e acendo-lhe o cigarro, que ele metera entre os lábios. O estranho puxa uma longa fumaça e diz-me:
- Tens três minutos de vida! - e dito isto recomeça a andar.
Levei um certo tempo com aquelas palavras a ecoarem no meu cérebro...tens três minutos de vida... olho para o meu relógio para ver as horas... estou a ficar doido de certeza.
Volto-me para traz para perguntar ao homem o porquê de ele dizer aquilo, mas ele tinha desaparecido.
Novamente aquela sensação de medo e cada vez mais forte.
- Como era possível ele ter desaparecido assim?
Bem, o que tenho de melhor a fazer é sair o mais depressa desta rua. Desejo desesperadamente entrar numa rua com muita luz, movimento... Sinto que tenho que acelerar o passo, só me falta mesmo é descer aquela escadaria com seis dúzias de degraus, virar à direita, entrar na calçada do Elevador do Lavra e descer à rua de S. José e aí sim, estou livre daquela calçada do Torel.
Desço os degraus a três a três... sinto que o medo está a fazer-me entrar em pânico... só quero sair daqui.
Só me faltam cinco degraus para entrar na calçada do Elevador e...
e de repente o pé escorrega-me na escadaria molhada pela humidade do nevoeiro, não consigo manter o equilíbrio, o chão foge-me.
Caio de frente... bato com a cara no último degrau, o meu corpo enrola como uma bola, não conseguia parar... sinto uma dor horrível na mão que tinha suportado o peso do corpo na queda...
De repente oiço o tilintar de uma campainha, com esforço tento descobrir de onde vem o som e vejo um monstro enorme com uma luz forte.
Primeiro o estranho agora aquilo.
- Mas que se raio se passa nesta estranha calçada ?! Será do nevoeiro?
Consigo aperceber-me que é o Elevador do Lavra, que desce a calçada e vem ao meu encontro.
Tento me levantar mas as dores são enormes... elevo o braço, numa derradeira tentativa de fazer parar o Elevador que rapidamente avança na minha direcção... a luz do farol cintila no meu relógio... fixo os olhos nos pequenos ponteiros e vejo tinham passado três minutos exactos desde o meu encontro com o estranho personagem que me tinha pedido lume, sinto um enorme estrondo na minha cabeça e um escuro repentino.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2013