Arquivo Cafeína

A Vergonha

'Chevry' — 05.02.2002

Acordava e logo um sentimento de angústia lhe vinha à boca. Algo lhe dizia que a noite anterior tinha sido uma desgraça. Tentava lembrar-se e à medida que os pensamentos disparavam no cérebro como tiras de uma fita de um filme de cinema rejeitava-os, negava-os com a força com que fechava os olhos e proferia uma ou duas palavaras “Que vergonha”. Depois enchia-se de coragem e forçava a memória, corando sozinha.

Rapidamente vestia umas calças e uma camisa e rezava para que ao sair não se deparasse com ninguém. Sentia-se tão mal, odiava-se tanto que tinha medo que os outros o percebessem e acima de tudo absorvessem esse mesmo ódio por ela. Lavava apressadamente a cara, a qual nunca enxugava por esquecimento da toalha no quarto, por pressa e preguiça, por não gostar de limpar a cara a toalhas imundas onde qualquer outra pessoa limpa as mãos. As mãos das prostitutas de unhas côncavas de um amarelo acastanhado entranhado que pertence e faz parte da toxicidade. As mãos que sempre a impresionaram ao ponto de olhar as suas e verificar se estariam a ficar semelhantes. Alegrava-se pelo inventário positivo que na maior parte das vezes tirava.
Galgava as escadas e meio contra vontade entrava no café onde bebia uma bica. Que ninguém a olhasse, que ninguém lhe falasse, que ninguém lhe dirigisse a palavra e sobretudo que o empregado não fosse simpático. Tinha medo dos outros, medo que eles vissem, medo de ser observada, olhada, certamente estariam a adivinhar tudo. Sabiam do que se tinha passado, sabiam que iria comprar mais uma, sabiam com quem se tinha deitado, sabiam do seu passado.
Descia a rua cambaleante de sono, cambaleante de pensamentos e sentimentos auto-destrutivos, cambaleante da ressaca que lhe fizera ter de agarrar a chávena com as duas mãos não evitando que um pouco de café se entornasse e tivesse de respirar fundo aguardando que o homem a seu lado no balcão pagasse e saísse.
Ao entrar na loja de bebidas mais uma vergonha a enfrentar. Todos os dias e ainda não eram dez horas da manhã. Se de início aguardava em casa de forma a ir lá numa hora mais tardia, agora a vergonha de lá ir vencia a vergonha de estar em casa com os seus pensamentos.
Nunca dissera nada excepto daquela vez que fingindo-se alegre dissera que tinha festas em casa todos os dias. Que idiotice... A senhora sempre simpática evitava que procurasse uma outra loja por vergonha de lá voltar a entrar. Apercebia-se, como é óbvio, mas esboçava sempre um “Bom Dia” com um sorriso honesto que talvez contivesse um pouco de piedade mas nenhum desdém ou julgamente.
Agora respirava fundo : o passo principal estava dado. O whisky comprado e pago, no entanto aguardava-a um segundo não menos complicado : entrar em casa, os sacos sempre meio transparentes, o gargalo da garrafa a descoberto. Passava pelo supermercado e comprava algo mais para encher o saco. Uma coca-cola que agora já não necessitava de misturar com o whisky, isso fora de início, agora custava apenas o primeiro trago, a garganta queimava, o estômago ardia mas ao final de meio copo estava a bebê-lo como água cristalina. Rapidamente chegaria o dia em que diluiria alcool etílico com água. E tão bem que lhe caía, as mãos deixavam de tremer, o espelho já reflectia uma pessoa, feia e má mas uma pessoa. E a primeira metade da garrafa era bebida sofregamente de forma a encontrar o estado de espírito que lhe permitisse olhar no espelho em sua frente e sorrir, sorrir de quão bonita era. Seduzia-se a si mesma em jogos narcísicos dignos da paixão de qualquer um. Sentia-
-se bela e capaz de sair e enfrentar o mundo. Capaz de conquistar o homem que quisesse. E assim era desde que eles não se importassem com a embriaguez do seu corpo. Todo o seu corpo irradiava mel ao qual se seguia uma agressividade capaz de matar com o olhar. Ódio, os seus olhos irradiavam ódio, o mesmo ódio que sentia por si mesma viravasse agora para os outros.
Saía à rua cambaleante do alcóol, cambaleante de segurança, cambaleante de presunção.
Subia as escadas e batia à porta. Ao abrir-se sempre a mesma cena, um hall minúsculo de onde se vislumbrava uma cozinha pouco maior onde se encontrava uma família que logo virava os olhos na sua direcção. As vozes deixavam de se ouvir por momentos. “O que faria ali uma miúda assim” pensava que pensariam. Sabia não ter aspecto de prostituta e sabia não estar magra como uma dependente. O homem aparecia e ao contrário do que fazia com os outros pedia-lhe para entrar e levava-a a seu quarto, empilhado de coisas velhas, com cheiro a bairro, alimentos cozinhados, roupa lavada com sabão e colchas de trapos. Dava-lhe a caixa e como habitualmente convidava-a a sair para beber um copo numa noite qualquer. Ela sentia-se bem em aquele pobre coitado sonhar em dar-lhe uma queca. Sorria-lhe, no entanto se abusasse fazia cara feia e chamava-o de chato. Tivera de o conquistar para que lhe vendesse comprimidos a qualquer hora do dia ou da noite e agora tinha de suportar os seus jogos. Fazia-o desafogadamente, e o importante é que descia as escadas com as lamelas de royphnol na mão.
Evitava passar na rua principal. Não gostava de fazer gala. Sabia que a olhavam e estranhavam a sua ausência. Desde que chegara que só ali parava para entrar nos bares.
Sentada na cama, em frente ao seu amigo espelho com quem mantinha uma relação amor/ódio, esmagava os comprimidos e dava uma forte inspiradela no fumo que destes saía. A prata ficava negra, a cabeça zunia. Que bom, que relaxante. A cabeça pendia-lhe para trás, as mãos descaíam no colo, via duas no espelho e sorria. Que alívio. Fumava até cair adormecida para só acordar para o jantar. Tomava um banho, vestia-se e preparava-se para mais um dia/noite em que seria quem quisesse, em que fingiria levar uma vida divertida e desafogada. Jantar que não lhe apetecia tomar mas que pagava para poder continuar a beber, sem vergonhas.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2013