Palmadinhas nas costas
Nao os vejo faz muito tempo. Somos amigos. E da primeira vez que os revejo as primeiras palavras que me saem da boca são insultos: " Então meus caralhos?" E eles sabem, tenho a certeza de que sabem que esse insulto, entre o Caralho e o Panasca, transporta toda a minha saudade por eles.
E essa palmada nas costas que te irritou tanto era só o prelúdio de um abraço que em si tem tudo o que sinto. Então descubro que sinto saudades de ser português. Este povo que se toca. Esta explanação manual, corporal do que se sente. Estranho num povo com uma lingua tão rica. Pois o que penso e que o português sente mais do que a linguagem lhe permite. E então desdobra-se em toques, esgrima sentimental. Torna-se uma verdadeira metralhadora de contacto. Violento! Mas essa atitude vale por todos os defeitos que lhe possam apontar. A Amizade é uma pega de caras! Honesto, brutal, violento, sanguinária, glória ou derrota, morte. E um exercício de coragem. Enfrenta-se de peito aberto, com essa disposição de ignorar o falhanço. Nisso de Amor o Português é o Ícaro da Europa e o mestre do Mundo. O resto da Europa ajoelha-se ao perigo do engano. Não arrisca, sonda, analisa, experimenta e lá volvidos uns pares de meses considera avançar com essa amizade segura. Porém a Amizade não tem seguro, pela mesma razão que não é rentável ser a seguradora de um forcado. Imprevisível. Surpresa. Descoberta. A amizade e o amor têm na sua natureza a tragédia, foda-se! Não há como evitá-lo. E por isso o Luso na pequenez do seu tamanho e na grandeza do seu coração aceita isso e parte para luta! Toma chapada, toma pontapé, toma caralhada e insultos à tua mãe! Quantas vezes ja não ouvimos histórias de gajos que quase se mataram à porrada para no instante seguinte andarem agarrados como amigos de uma vida inteira.
Foi por isso que acordado de um sono profundo e arrancado da cama à forca, feito virgem insultada o Rot um dia me disse: Arriscaste tudo, Arriscaste tudo.
Daaaah. Ate arriscava mais se fosse preciso!
E hoje estou num sítio onde as pessoas não se tocam, e tudo me parece artificial e estranho. Um desses sonhos onde estás perdido.
E acho que quando voltar vou mandar uns quantos Caralhos para o Hospital, à força de umas palmadinhas nas costas! Ehehehehe...Terapeutico...
É Portugal, ninguém leva a mal!