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Vários - Warp 10: Influences / Classics / Remixes (1999)

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 07.10.2001

E se não tivesse existido a Warp Records? Começando nesta pergunta retórica, é justo assumir que, sem a Warp, a cultura dos anos 90 teria sido muito diferente. Mais que um mero 'label' dedicado principalmente às vertentes electrónicas, a casa de Sheffield é uma marca que tem influenciado a cultura da última década como uma espécie de guru imperceptível. Desde artistas pop como a islandesa Björk, produzida por uma das primeiras descobertas da Warp, Mark Bell dos LFO, até a uma das excentricidades de Aphex Twin - o tema 'Come to Daddy', utilizado num anúncio televisivo do operador de telemóveis Orange, aquele pequeno logotipo - que mostra um raio com as letras 'WARP' sobre um globo (coincidência?) - espreita sempre algures. E Chris Cunningham, o realizador que se estreou com o clip de 'Second Bad Vilbel' dos Autechre e responsável pelos 'horríveis' 'Come to Daddy' e 'Windowlicker' de Aphex Twin, é mais um artista 'apadrinhado' pela Warp que promete ser um dos grandes nomes no cinema da nova década.

Sítio onde misteriosamente não aparece o logotipo da Warp, contudo, é na embalagem dos três álbuns que a editora lançou para assinalar o décimo aniversário. Sem se submeter a uma lógica comercial na apresentação dos mesmos, The Designers Republic (grupo de artistas também de Sheffield e
incontornáveis do design actual) criaram para a estética estes três álbuns aquele que é o mais enigmático trabalho que já realizaram, dominado pelo púrpura, a cor 'oficial' da Warp. Desde a embalagem é visível que em vez de um mero 'best of', a Warp decidiu orientar estas três compilações aos conhecedores, vendendo-as como objectos de coleccionador. Eis aqui o ponto de partida para uma crítica a estes três álbuns que se comportam como um todo: Ao contrário da soberba 'Blech' de 1996 ou da 'WAP100 - We Are Reasonable People', estas 'WARP10+x' não pretendem atrair novos apreciadores, mas sim presentear aqueles que eventualmente acompanharam a Warp em boa parte dos últimos 10 anos.

Ao longo de mais de duas horas de 'WARP10+1: Influences', os fundadores da Warp (com a ajuda de Parrot dos The All Seeing I) expõem as razões pelas quais fundaram a editora. Desiludam-se: Não há um pingo de Kraftwerk nesta compilação. Devemos a Warp ao Acid House e ao 'Summer of Love' de 1988. Devemos a Warp a Detroit. Desde nomes mais obscuros como Nitro Deluxe ou Reese & Santonio até Juan Atkins (conhecido também como Model500) ou 808 State, este duplo CD não deixa de se tornar quase desorientante para quem supostamente estaria a ouvir uma compilação de uma editora na vanguarda da electrónica. Para uma geração que ouve Autechre, a maioria dos temas de 'Influences' não deixa de soar a velho, cheirar a mofo. É curiosamente o 'clássico de Ibiza' 'Voodoo Ray' - de um A Guy Called Gerald irreconhecível quando comparado com o responsável por 'Black Secret Technology' - o melhor momento em duas horas de verdadeira viagem ao passado. Se tal é desejável, fica ao critério do ouvinte.

'WARP10+2: Classics' não melhora as coisas. Existem momentos absolutamente notáveis como o tema homónimo dos LFO ou 'Hey! Hey! Can U Relate?' de DJ Mink, mas os restantes temas não se afastam muito de meros 'bleeps', que
atingem um pico de irritabilidade com 'Tricky Disco', do grupo com o mesmo nome. Apesar de traçar um percurso de quase 4 anos, entre 89 e 92, penso que há um exagero ao incluir 4 temas dos LFO e 5 temas de uns Nightmares on Wax ainda longe da maturidade atingida em 'Smokers' Delight'. É de louvar o facto de ter sido evitada a solução fácil de um 'best of' que se limitasse a fazer cair de pára-quedas temas de Aphex Twin, Autechre, Plaid ou Nightmares on Wax (posteriores), mas a escolha aparentemente aleatória de temas de entre os primeiros lançamentos da Warp (existem 14 temas retirados dos primeiros 9 lançamentos) faz-nos reflectir sobre a razão pela qual certas coisas se tornam óbvias.

Finalmente chegámos ao 'agora'. Em 'WARP10+3: Remixes' surgem os tão procurados clássicos, 'best of' da Warp, mas remisturados ou por artistas da casa (Plaid, Autechre, Red Snapper, Jimi Tenor), ou por artistas de outras editoras com relações de proximidade, como a Matador (Mogwai), Rephlex
(Bogdan Raczynski) ou a Kompakt (Oval). Aqui é notória uma certa confusão e falta de homogeneidade. Se Luke Vibert remistura 'Hey! Hey! Can U Relate?' com competência, os Plaid decepcionam pela displicência com que confrontam
'Vletrmx', uma das obras-primas dos Autechre, e logo a seguir Four Tet deliciam com uma (à partida) dificílima remistura de um dos temas de 'Selected Ambient Works II' de Aphex Twin. O segundo CD, que abre com uma razoável modificação de Push Button Objects sobre Boards of Canada e com uma intervenção extremamente dançável de Red Snapper em 'Wilmot' dos Sabres of Paradise, é rasgado a meio por 'esculturas sónicas' de Oval e Richard Devine que
destroem o tema original levando-o a um ponto de redundância. Mesmo o seguidor mais fiel necessita de estômago nesta viagem - num momento dança-se, noutro relembramos o som de cassetes de computador.

A Warp celebrou o seu décimo aniversário de uma forma bastante estranha. Por um lado orientou abertamente este triplo lançamento aos 'habitués' e coleccionadores, mas por outro não deixou de suavizar certas arestas (purpuras?) com a inclusão de artistas que nada têm a ver com a Warp, pelo
menos directamente, como Mogwai ou Spiritualized. E se os primeiros dois álbuns desta série parecem ter sido achados no fundo de um baú, o contraste violento do terceiro, mesmo dentro de si próprio, dá a sensação de que no fundo estas compilações tentam agradar, talvez demasiadamente, a gregos e a troianos. Penso que apesar de serem um interessante objecto de colecção, a série 'WARP10+x' não é uma boa montra, nem sequer uma boa retrospectiva sobre a editora. Mas estarei satisfeito se isto se repetir daqui a dez anos.

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(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012