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The Aphex Twin - Selected Ambient Works II (1994)

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 07.10.2001

'Eject'. Retiro da aparelhagem uma qualquer compilação de techno dito 'ambiental'. Coloco o CD numa embalagem com uma imagem de uma qualquer paisagem gerada em computador. Se cair em tais clichés, "Selected Ambient Works II" tem, por sua vez, um ar de relíquia, o famoso logotipo de Aphex Twin numa escavação arqueológica. Retiro o primeiro CD e coloco-o na bandeja da aparelhagem. 'Close'. 'Play'. A realidade dissolve-se. 'Pause'.

Estamos em 1994. Kurt Cobain morreu e o grunge atinge o seu ponto mais alto. O fenómeno 'rave' e 'hardcore' entra em decadência, enquanto se assiste ao aparecimento do jungle mais musculado - a influência do jazz ficará para mais depois. No Verão as pistas de dança são dominadas pelo revivalismo do reggae. E a palavra 'underground' torna-se 'fixe'. Ao mesmo tempo, editoras como a Studio K7 ou a R&S começam a investir no techno 'ambiental', orientado mais para aqueles acabados de chegar de noites alimentadas a ecstasy.

Numa posição mais vanguardista, em sintonia com bandas como The Future Sound of London ou Banco de Gaia, a editora inglesa Warp havia já editado os primeiros álbuns dos Autechre - "Incunabula" e "Amber", assim como "Anti EP" - um protesto activo contra a 'Criminal Justice Bill', que pretendia ilegalizar as 'rave-parties' na Grã-Bretanha (um tema recorrente em 1994, como exemplificado em "Music for the Jilted Generation" dos The Prodigy). Mas é outro artista da Warp, Richard D. James, quem lança o álbum seminal que é "Selected Ambient Works II". Conhecido como The Aphex Twin (além de AFX, Polygon Window ou Gak), o músico natural da pequena vila de Cornwall era até aqui conhecido como o 'rei do techno'. Richard, de quem se diz que constrói os seus proprios instrumentos electrónicos desde os 12 anos, celebrizou-se através de clássicos das 'raves' como Didgeridoo ou Analogue Bubblebath. Lançou também "Selected Ambient Works 85-92", um misto de ambiente com batidas mais 'hardcore' (que não deixa de ser um clássico com temas como Xtal ou Shottky's 7th Path) e "Surfing on Sinewaves" (como Polygon Window - outro excelente álbum), mas nada, além de alguns temas mais obscuros lançados em EPs, faria prever algo da natureza de "Selected Ambient Works II".

'Play'. Não há quase uma única batida ao longo destes dois CDs. Isto é o expoente máximo de ambiente, o oposto a 'música para fazer ambiente'. É música para ouvir atentamente. Música para ouvir num longo banho de imersão, olhando para o tecto. Música para ouvir deitado observando as sombras projectadas por uma luz fraca. Música para ouvir parado, olhando, distante, a intervenção de um edifício alto num céu muito azul. Podemos fechar os olhos, imaginar gigantescas naves pairando no deserto no ano 9837. O álbum entra em ruptura com todo o contexto que expus na primeira parte desta crítica, o álbum não necessita de contexto. Ao conseguir dissociar-se do tempo em que foi criado, fará sempre sentido. Richard atinge aqui a sua imortalidade, pois no futuro, quando quer o rock, quer as 'rave-parties' forem olhadas como se fossem tradições medievais, "S.A.W.II" será ainda uma obra válida para quem quiser meditar olhando para o tecto.

Em "S.A.W.II" não há pretenciosismos do género de tentar dar um nome a aquilo que não tem. Tal como os nomes 'desprovidos de qualquer significado' dos temas de Autechre, aqui as músicas têm imagens, que terão de ser associadas através de símbolos impressos no CD. O resto fica ao critério do ouvinte. A música apenas fornece um vasto deserto no qual a nossa imaginação pode colocar gigantescas naves, um sol abrasador ou uma bela aurora boreal.

'Eject'. Tiro o primeiro CD, coloco o segundo. 'Close'. 'Play'.

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