Porque sou esquisito em relação aos cafés
Decoração: Há cafés que são verdadeiros atentados. São daqueles com espelhos na parede, cortados na diagonal, ou com todo o reportório de espelhinhos da Tuborg e da Carlsberg colocado ao acaso. Apresentam mesas e cadeiras com tampos de plástico cinzento, a imitar granito, cadeiras estas que se roçam metalicamente no chão de tijoleira, também este a imitar granito. Cafés destes deviam ser proibidos.
Putos: Até podemos estar num café agradável, construído com gosto, mas eis que aparecem dois putos a estragar o sistema: Depois de descobrirem o ruído satisfatório de pisar com força o chão de madeira, nada os parece impedir de correr para trás e para a frente, até um deles cair e desatar aos berros. Dizem que o melhor contraceptivo são os filhos dos outros, e é pena que os pais destes miúdos nunca tivessem presenciado tão aberrante cena num café. Fartos de aturar os filhos em casa, levam-nos para o café para partilharem a sua irritação com a população. Devia ser ilegal.
Ruídos industriais: Quantas vezes uma agradável conversa é subitamente interrompida pelo silvo metálico e ensurdecedor do jacto de uma máquina de café? E o estardalhaço que é quando começam a arrumar as chávenas, não na cozinha mas perto dos clientes, com um zelo só comparável ao de um maníaco com uma picareta numa loja da Vista Alegre? E já nem falo nas situações absolutamente bizarras, como daquela vez em que estava eu num café requintado e subitamente alguém começou a aspirar o chão, transformando o ambiente no de um consultório de um dentista. Fazer certas coisas dentro do horário de abertura devia dar prisão.
Namorados: Há cafés que são belos locais românticos e acho perfeitamente natural que sejam frequentados por casais apaixonados. Só peço que namorem romanticamente em silêncio, em vez de se porem a dar beijos ruidosos e a fazer sei-lá-o-quê na mesa atrás da minha, enquanto eu me tento concentrar e acabar a porcaria deste artigo! Devia haver um subsídio estatal para tirar certos casais dos cafés e levá-los para um motel.
Armantes e loucos: Eu próprio, devido a certas condicionantes, admito falar um pouco alto. Mas o que é verdadeiramente revoltante é o 'falar alto selectivo' de gente que quer que todo o café ou bar fique a saber que conheceram pessoalmente um gajo dos Radiohead, que estiveram em Londres em 1972, ou que vão expor umas fotos sei-lá-onde. Mas piores mesmo são as 'atracções turísticas' que subitamente começam a declamar poemas que não rimam aos berros ou que aproveitam a minha t-shirt para nos espetar com uma conversa indesejada, além de nos espetarem com um hálito a aguardente. Certos individuos deviam ser detidos.
É por isto que sou esquisito em relação aos cafés.