Arquivo Cafeína

A grande mentira

'Jjsousa' — 26.08.2002

A gula é um dos sete pecados mortais e a gula dos mercados financeiros e do capitalismo selvagem ( máximo lucro – mínimo custo ) pode ferir de morte ou adiar por muitos anos a falada globalização.

Quando os incautos, que os há e haverá sempre, pensavam que tinha chegado o “ paraíso “ na terra, a sociedade da abundância, pelo menos na Europa e E.UA, eis que com o consulado do presidente Bush J., o ultraliberalismo, expoente dum capitalismo selvagem, pretende fazer caminho, travado pelo 11 de Setembro de 2001, de que infelizmente poucos parecem ter tirado as devidas lições, com a excepção dum combate contra um terrorismo difuso, vago e mal definido, quando nos falta conhecer as verdadeiras razões que ditam a prática do poder americano.

O falhanço estrondoso do capitalismo popular, a quimera, a ilusão duma falsa prosperidade, as falências de grandes grupos económicos nos E.U.A., que durante anos ocultavam através de engenharias financeiras, com a conivência das empresas de auditoria, os prejuízos avultados, o descalabro da bolsa, tudo aponta para que a imagem difundida para os sete cantos do Mundo do sonho americano, não passou de uma grande mentira, de que começa a despontar um bocadinho de verdade.

Tal como na EUROPA dos 15, em que governada por mais de uma década, por governos de matriz socialista, e desorientados pela queda do outro mito que foi o comunismo nos pobres países de leste, ficaram deslumbrados pelas maravilhas do capital, pelas potencialidades do vil cifrão e nada fizeram para que os mercados financeiros, com a sua aquiescência, fossem a pouco e pouco asfixiando toadas as actividades económicas produtivas, sempre na mira de se transformarem em potentados financeiros para ditarem a sua lei aos próprios Estados.

O Estado Social ou Estado Providência, conquistado após a II Guerra Mundial, com mais de 50 milhões de mortos, a regulação das relações sociais, económicas e políticas, parecia afundar – se com o ultraliberalismo que soprava com intensidade dos E.U.A.

Mau grado o 11 de Setembro, a violência gratuita sobre milhares de inocentes, o terrorismo bárbaro cometido, julgo que marcará para sempre uma etapa - o fim do ultraliberalismo, de que muitos países da Europa ainda teimam em copiar, porque as democracias vigentes não passam também de mais uma enorme mentira, em que tudo é manipulado, ocultado e apresentado aos cidadãos de forma massificada.

O capitalismo, que derrotou de forma inequívoca o modo de produção dito socialista, a demonstrá-lo, a humilhação de milhares e milhares de imigrantes oriundos da antiga órbita soviética, enfrenta uma das suas piores crises após a grande depressão de 1929 e que não será superada pela rédea solta dos mercados financeiros, pela concentração na alta finança dos meios de produção, pelo aviltamento da dignidade humana, pelas crescentes desigualdades sociais, porque aí está o rastilho duma convulsão social sem precedentes, que arrastará consigo os próprios mercados e fará implodir da pior maneira a pretensa globalização.

O capitalismo democrático, as democracias, a coesão social, o equilíbrio de poderes, a dignidade humana, a cidadania, têm que prevalecer sobre esse “império do mal”, para o que não será despiciendo uma cada vez mais interveniente opinião pública ( não confundir com a opinião publicada ), em que as correcções a introduzir nas sociedades democráticas salvem a tempo o Mundo duma III hecatombe, até porque a actual GRANDE MENTIRA salta à vista de todos os cidadãos informados.

E se é verdade que por regra a administração pública é má gestora, com evidentes desperdícios, com desvios dos mais variados, com corrupção de toda a espécie, não é menos verdade que entregar todos os sectores do Estado aos privados, com destaque para a Saúde e Segurança Social, nada resolverá - o fracasso que vem dos EUA deve fazer soar as campainhas.

Maior transparência, quer pública, quer privada, maior responsabilização democrática, melhor prestação de contas aos cidadãos, um nível muito mais elevado de exigência a todos e fundamentalmente a elementar introdução duma cultura cívica, como disciplina obrigatória, desde os bancos da escola.

De resto, o tempo actual, do futebol às telenovelas, é a versão actualizada do pão e circo dos Romanos, em que a barbárie galopante, o laxismo, a irresponsabilidade, a má – educação prepotente, as mil habilidades vis, medram e campeiam. Isto não é democracia, é mais um mito que cai, mais UMA GRANDE MENTIRA!

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012