A ditadura do conceito
Quem, no decorrer da apresentação de uma obra vagamente artística, nunca se deparou com o seguinte reparo, que levante a mão:
"- O teu trabalho está interessante mas precisa de um conceito qualquer por trás."
O conceito e o preconceito contra a falta de conceito são afinal de contas o ganha-pão do artista (em itálico) português. Os verdadeiros fazem as obras e encomendam estes conceitos, desculpas esfarrapadas para as vender, aos outros.
Há um belo exemplo no filme Ghost World: Uma das colegas de Enid nas suas aulas de arte apresenta uma obra medíocre que consiste num tampax dentro de uma chávena, porém, com o argumento de que a obra representava a opressão feminina, a tal rapariga ganha a simpatia da professora, obrigando Enid a jogar pelo mesmo sistema. Ora o que o filme mostra muito bem é que quem faz isto tem quase assegurada uma bela carreira nas artes, como teria Enid se não tivesse exagerado na sua parada.
O mesmo se passa na vida real. Os poucos infelizes que reconsideram Duchamp como um dos maiores criminosos do século XX, que acreditam que se a obra é uma manifesta merda o conceito de nada serve, são excluídos. Somos os anti-sociais, os artistas inaptos, os que cometem a ousadia de tentar criar coisas bonitas e interessantes (dois grandessísimos palavrões) que, cúmulo dos cúmulos, não se dignam a dar explicações. Somos aqueles que como consequência se sujeitam permanente à achega.
Sofremos com os sorrisos irónicos de professores, colegas, galeristas, managers. Tentamos ser directos no que fazemos, ter alguma ingenuidade, fazer coisas agradáveis. Em suma, no Portugal de 2002, comportamo-nos como umas grandessíssimas bestas, que cometem a indelicadeza de não inventar filosóficas desculpas esfarrapadas para o nosso trabalho.
Num àparte, já viram a rua das galerias num daqueles dias de inaugurações simultâneas? Tanto Mercedes, BMW, Audi e Volvo estacionado em cima do passeio! Serão estes os chamados concept-cars?