A matraca do progresso
Há uns dias atrás descobri este artigo sobre o modo como os telemóveis estão a afectar a nossa vida. E descobri que não sou o único a pensar que os telemóveis são instrumentos maléficos.
Não me refiro às irritações que eles causam. Sim, é verdade que quem deixa o telemóvel tocar no cinema deveria ser acompanhado até à entrada, sendo de seguida sujeito a um bem colocado pontapé no cu. Sim, quem decide mostrar todos os toques irritantes que o seu apetrecho possui a todos os presentes no café deveria levar com um daqueles pesos de 10 toneladas em cima. Sim, alguma coisa bastante desagradável deveria acontecer a quem não usa o seu implante facial com civismo, e deviam construir-se prisões com alas especiais para essas pessoas, de preferência ao lado da ala dos condutores que estacionam em cima do passeio.
No entanto, eis o que é mais irritante no telemóvel: Não se pode viver com ele. Hoje em dia, quem não tem telemóvel é ou um bicho do mato ou... um bicho do mato (pois mesmo os pobres têm telemóvel). Onde estão as vozes corajosas de há anos que diziam que nunca haveriam de ter um telefone portátil? Têm telemóvel, claro, provavelmente daqueles últimos modelos que tiram fotografias e tudo. Todas as relações sociais de hoje em dia têm como base o telemóvel. Quem não se encontra na nossa lista telefónica simplesmente não existe. Hoje em dia os compromissos são combinados com um 'já passo aí', não com um 'terça-feira às dez passo aí'. Ficámos com a memória curta como os peixinhos. No futuro só existe o amanhã, eventualmente o dia a seguir, e sempre dependente de uma confirmação prévia por telemóvel, claro. Os médicos e alguns patrões e professores ainda nos obrigam a preencher na nossa agenda algo várias páginas à frente da de hoje, mas tirando esses reaccionários tudo se combina na hora.
Ora, pode-se argumentar que a nossa vida fica mais interessante, espontânea e imprevisível. O que, como qualquer trabalhador que é acordado por uma versão electrónica da última dos U2 às 4 da manhã pode atestar, é concerteza um progresso.