Arquivo Cafeína

Para acabar de vez com a cultura

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 25.12.2002

Andava eu nas minhas comprinhas de Natal quando entrei numa livraria com o propósito de também oferecer um livro a mim próprio. Como apreciador das artes gráficas, encaminhei-me para a área dos livros de design e arquitectura, e eis que deparei com o já clássico 'S, M, L, XL' de Rem Koolhaas e Bruce Mau com uma estranha capa, em que as letras cor de laranja tinham substituídas por um estranho púrpura. Por curiosidade olhei para a contracapa para ver o preço, e este deixou-me chocado: 85 euros. Porquê? Porque o exemplar que comprei (com a vantagem de ter as letras da capa a laranja) há não mais que 3 anos custou-me, numa outra livraria da mesma cadeia (a Bertrand), 7 contos, ou seja, 35 euros.

Será que o papel encareceu tanto nestes últimos anos? A verdade é que a inflação no preço dos livros, nomeadamente nos mais técnicos, tem sido assustadora. E mesmo os livros baratos, estão mais caros que nunca. Veja-se por exemplo os livros de ficção científica da Colecção Argonauta (aqueles livrinhos pequenos e azuis), em que cada exemplar custa 4 euros na própria editora, quando os posso arranjar por menos de 1 euro (e em perfeito estado) em certos alfarrabistas (e mais, as edições importadas à venda na Livraria Britânica custam pouco mais com uma qualidade de impressão e acabamento muitíssimo superior). É um facto: os livros em Portugal têm preços proibitivos, sem nada que o justifique.

E os problemas não acabam com o custo. Como já referi anteriormente, as próprias livrarias são uma porcaria, mesmo as mais modernas são espaços desconfortáveis, com corredores estreitos cheios de estantes opressivas, lugares portanto pouco convidativos aos seus clientes e consequentemente à venda dos livros, caso houvesse dinheiro para os comprar (uma rara excepção, que é de louvar, é a Almedina do Arrábida Shopping, apesar do desastre completo que é a zona dos discos).

Ao mesmo tempo, desde o início deste ano lectivo que vários campus universitários se encontram sem reprografias, graças às acções dos simpáticos senhores da Sociedade Portuguesa de Autores que conseguiram que a polícia se dedicasse a combater as fotocópias em vez de andar a prender criminosos. E isto tudo porque o cartel da distribuição livreira prefere um pequeno (e hipotético, já que não há dinheiro) lucro em livros originais, mesmo que para tal tenha que lançar o caos no sistema educativo, uma vez que a falta de fotocópias vai provocar uma óbvia menor qualificação dos já mal-qualificados estudantes portugueses.

Diz-se que a proibição das fotocopiadoras (devido a receios de que pudessem ser usadas com fins subversivos) levou a uma crise cientifica e cultural na União Soviética que em última análise levou ao seu colapso. Cá em Portugal, parece que os senhores que deviam ser responsáveis por ela estão a fazer tudo para acabar de vez com a cultura.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012