Arquivo Cafeína

Entre duas BD's.

'Rpedro' — 07.02.2003

Ao pesquisar a secção de Banda Desenhada na livraria, surgiram-me duas opções completamente díspares, ainda que ambas ao mesmo preço, ambas ao mesmo número de páginas.

"Maus", de Art Spiegelman, narra a história delicada e complexa de um sobrevivente dos campos de concentração nazis. A trama inicia-se nos "nossos" dias, com o próprio Art a visitar o seu pai Vladek, pedindo-lhe informações a respeito do seu passado, quando a Europa se encontrava na Segunda Guerra Mundial e a perseguição nazi atingia o seu nível máximo de paranóia. Ao mesmo tempo que é mostrada a relação de amor-ódio entre filho e pai, uma série de flashbacks levam-nos ao passado, relatando toda a brutalidade do Holocausto, o desespero dos prisioneiros, a força dos sobreviventes. É curioso como a arte caricatural de "Maus", com os judeus a serem representados por ratos e os nazis por gatos, não retira nenhum do seu impacto. Sem lições de moral, culpas apontadas ou exageradas dramatizações, é uma história tremendamente humana e honesta. Pelo seu trabalho - apenas o primeiro volume levou oito anos a ser concebido - Spiegelman recebeu o prémio Pulitzer, o único a ser concedido a uma história de BD.

Para quem não deseje enfronhar-se nas profundas e complexas realidades humanas, e deseje apenas um bombardeio visual, pode sempre optar por "A Estrela Vermelha", de Christian Gosset, que pode ser considera a antítese de "Maus". Onde o relato de Vladek é um texto de uma imensa profundidade, com desenhos simplificados a preto-e-branco, "A Estrela Vermelha" é uma completa experiência visual, de fabulosos desenhos coloridos por computador, com gráficos 3D a completar o cenário; mas uma história de completa bacoquice, acerca de um qualquer exército que sofre uma pesada derrota num vale mágico. Em painéis que chegam a ocupar duas páginas, uma série de referências místicas já usadas e re-usadas, várias situações de "déja vu", personagens chapadas de um jogo de computador - não por acaso o autor trabalhou em vários títulos da LucasArts... - é a mostra como apenas um visual impecável não pode safar uma história. Requisitei o volume por recomendação, e pela indicação de:"Indicado para três prémios Eisner", mas não consegui disfarçar uma certa desilusão ao final. Fosse "A Estrela Vermelha" um desenho na linha de Spiegelman, e as suas cem páginas seriam reduzidas a um décimo. E pagar 10 euros por esta experiência acaba por pesar na carteira e na cabeça...

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012