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Soderbergh vs Spielberg

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 08.02.2003

Em confronto os dois maiores realizadores de cinema da América! De um lado, o veterano Steven Spielberg, homem com biliões de dólares no currículo e ainda recentemente em decadência depois da morteirada que foi O Resgate do Soldado Ryan e as grandessíssimas xaropadas que foram por exemplo Jurassic Park 2 e o Inteligência Artificial. Do outro lado, Steven Soderbergh, o 'Rei do Cool', que ainda recentemente estava em estado de graça com filmes super-estilosos como Romance Perigoso e Ocean's Eleven, e ainda com o excelente Traffic. Mas eis que a reviravolta nesta situação chegou durante os últimos meses. Então vejamos...

Depois do semi-sucesso de Ocean's Eleven, filme-celebração de uma geração de actores feito de encomenda para a excelente banda sonora de David Holmes, Soderbergh achou que era tempo de parar um pouco, reflectir sobre o estado de Hollywood, e porventura voltar aos dias de Sexo, Mentiras e Vídeo. Pura ilusão. Vidas a Nu, actualmente nos cinemas, é o Steven Soderbergh a fazer-se passar por europeu (talvez mesmo por dinamarquês), com um filme que tem pouco de verdadeiramente experimental e que tudo o que consegue é fazer com que o sector do público que não tolera nada que não seja filmado em 35mm saia mais cedo da sala. Vidas a Nu (ou Full Frontal) não é um mau filme - tem cenas deliciosas como a da peça de teatro do Hitler que são suficientes para o manter à tona, ou seja, nas três estrelas. Mesmo assim, são duas estrelas abaixo do que Soderbergh costuma fazer.

Já Spielberg deixou-se das xaropadas para toda a família (como o confrangedor A.I.) e passou a fazer filmes nos quais mostra tudo do que é capaz. Em primeiro lugar, corrigiu todos os males de A.I. em Relatório Minoritário, e fez o melhor filme de ficção científica desde o longínquo Blade Runner (já vão 22 anos...), com todos os deliciosos defeitos e virtudes da anterior adaptação de Philip K. Dick ao cinema. E agora, Apanha-me Se Puderes. Pois é, já podíamos estar fartos de Tom Hanks e habituados a dizer mal de Leonardo di Caprio, mas quer-me parecer que vamos ter que os apanhar em nossas casas quando estivermos a ver as cerimónias dos Óscares. Apanha-me Se Puderes, a história verídica do maior burlão dos Estados Unidos - uma espécie de Vale e Azevedo junior -, é sem dúvida o grande filme deste início de ano, e coincide com aquela que foi talvez a mais discreta estreia de um filme de Spielberg em muito tempo. Altamente recomendado.

Dá para dizer, Spielberg 2, Soderbergh 0. Esperemos que o moço que agora parece caído na desgraça junto dos críticos (e que não escondo ser o meu realizador preferido) recupere com Solaris, o remake do excelente filme que é popularmente apelidado de o '2001 dos russos'.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012