A televisão multifuncional
A grande força e o grande defeito da televisão nestes mais de 40 anos desde as primeiras emissões em Portugal sempre foram o facto de a TV ser essencialmente televisão. Parece ridículo constatar que a televisão é televisão, mas o que se passa actualmente é que a televisão já não é televisão. Estamos na era da televisão multifuncional, a TV 2-em-1, 3-em-1, 4 e até 5-em-1. Pois é, o marketing que os champôs já abandonaram serve perfeitamente para a TV. E não me refiro à interactiva ou digital.
É como o Nutícias da SIC-Radical: um programa para o jovem moderno e sempre apressado, que tem assim a possibilidade de se actualizar enquanto se masturba - já que perder tempo com os telejornais está fora de questão. É como o Cabaret da Coxa da mesma estação - programa da manhã do Luís Goucha misturado com o Curto-Circuito (a propósito, se alguém tiver um vídeo da luta de estilos entre breakdance e fandango contacte-me). Ou como o CineXL, magazine de cinema misturado com o programa de rádio do locutor da moda.
Mas se na TV radical e experimentalista a multifunção é uma curiosidade engraçada, na TV corrente a multifunção é uma praga. 'The CC Files', ou em português o 'Caso Carlos Cruz' fica para os anais (no pun intended) como a convergência total da realidade com a ficção, o telejornal que é ao mesmo tempo uma estranha telenovela que é realmente capaz de ter o impacte momentâneo de uma grande volta no filme de Hollywood. Veja-se a bizarria de ontem da SIC que dizia que 'afinal há dois Carlos Cruzes!'. Os telejornais que são aliás verdadeiros programas de ponta, sempre no 'zeitgeist' multifuncional. Senão vejamos o uso creativo dos SMSs, interactividade cara, rasca e com maiores probabilidades de sucesso que a TV interactiva propriamente dita. Ou então os úbiquos 'tickers', aquelas letrinhas que passam na parte de baixo do ecrã que nos permitem ficarmos informados sem vermos as notícias.
É sensasional. Em programas tipo 'Opinião Pública' da SIC-Notícias, podemos ter o dobro das alarvidades no mesmo período de tempo, uma vez que ao mesmo tempo que alguém diz via telefone a bacorada número um podemos ler a número dois, enviada por e-mail, a passar em baixo. Obviamente que é necessário dar os devidos agradecimentos aos pioneiros desta TV multifuncional, o canal Bloomberg e o velhinho Mosaico da TV Cabo: Obrigado por terem estragado a televisão de vez. Agora resta ver o que raio vai a 'TV interactiva' inventar.