O Pseudo
Isto é um assalto. À mão armada. Um ataque violentíssimo. Como um leão que salta para cima de um caçador que caminhava serenamente pela savana, maravilhado com a diversidade de cores de um amanhecer africano. Um ataque vil, horrendo, como o cavalheiro que manda três brutamontes assassinar o seu rival com 50 facadas nas costas, isto na véspera de um duelo (que não podia vencer visto ser um azelha a pegar numa pistola, e o seu rival campeão de tiro aos pratos). Qual é, então, o meu problema? Penso que o posso descrever como a bipolarização de Portugal, à luz de uma azeiteirice e pseudolice crescentes. Há cada vez menos pessoas normais. Apesar de muitas variações, 99% da população podem ser classificados ou como azeiteiros (a maioria) ou pseudos (apesar de em menor número, a classe intelectual dominante).
O pseudo diz-se culto. O pseudo diz que lê. Muita poesia e ensaios, principalmente de escritores e pensadores eslavos de nomes acabados em 'ski'. São mais faceis de passar despercebidos. Alguém pode chamar ao Troski de 'Protski' que o erro passa despercebido. O pseudo tem gostos musicais 'alternativos'. Alternativos a quê? A tudo, menos aos outros pseudos. Existem sempre as mesmas quatro ou cinco bandas 'du jour' no cardápio do pseudo. O problema é que são mais 'de l'an' do que 'du jour' . O pseudo fala sempre das mesmas bandas na hora de revelar vastos conhecimentos musicais. E o mesmo se passa com a literatura. E com o cinema. O pseudo vai sempre ver filmes 'alternativos' a pequenas salas, para minimizar o risco de ser visto a sair ainda a meio da curta-metragem anterior ao filme. Mas no entanto, o pseudo é um ser tremendamente social. Fala como toda a gente, pelo que é um bom conselheiro no que toca a dar uma opinião sobre filmes mais 'regulares'. É como ter os resultados de um referendo a centenas de pessoas. O pseudo segue a opinião dos outros, é democrático. Claro que se todos forem pseudos, seguem-se todos uns aos outros sem entender o que seguem exactamente. É aí que entram os mega-pseudos: pseudos que até têm opiniões e vontade própria, colocados estratégicamente em posições influentes, isto é, na comunicação social.
É fácil distinguir um bom jornalista ou crítico de um mega-pseudo. O verdadeiro jornalista sabe que escreve para um público, que deve informar. Um bom crítico dá a sua opinião consciente que a está a transmitir a outra pessoa. O mega-pseudo semplesmente não quer saber. Escreve o que bem lhe apetece e lhe vai na alma, o que fica muito bem num caderno preto (daqueles fabulosos que dizem 'uso escolar' com letrinhas cinzentas) ou num diário, ou então num livro de poesia pequenino e obscuro. Mas não, esses são para os poetas. O mega-pseudo nem repara na placa que diz "Público" ou "Diário de Notícias" à porta do edifício onde trabalha. Gosta de escrever textos 'densos', altamente sobre-adjectivados, que mais ninguém, a não ser os pseudos, diz entender (quanto mais entender mesmo).
O mega-pseudo tem uma característica: tirou um curso superior inútil. Se um médico tem mesmo que tirar o curso de Medicina para poder exercer, o mega-pseudo exerce sempre uma profissão onde quase mais ninguém tirou curso. É a única maneira de poder entrar. Nem com uma 'cunha' de um familiar o mega-pseudo entra para o staff de um jornal, se não aprender umas coisitas de cultura-geral primeiro. E o mega-pseudo é absolutamente idolatrado por um enorme exercito de pseudos, que o seguem incondicionalmente, sonhando um dia chegar ao seu nivel. Em Portugal, poucos estimam os (tambem poucos) bons jornalistas e críticos que aí andam.
Existem publicações de qualidade próprias para os mega-pseudos darem largas à sua escrita críptica. O 'JL', e inúmeras revistas de mesa da sala de estar são perfeitamente adequadas aos seus artigos. Quem sabe, a partir do momento em que estão no seu devido local os mega-pseudos podem tornar-se Escritores, conseguindo uma então merecida promoção a Pessoa Normal e Culta, passando aí a serem dignos de respeito. Como quem diz, talvez ganhem juízo.
Infelizmente, o sonho de qualquer pseudo não são os 'media alternativos', mas sim os media mais generalistas possível - jornais nacionais, 'portais', revistas, programas na SIC. O pseudo gosta de poder. Defende-se sempre de qualquer ataque que os pretenda travar. Se um pseudo é criticado, junta instantâneamente os cursos de Psicologia e de Medicina (variante de Psiquiatria) ao seu vasto rol de conhecimentos, e julga de um ponto-de-vista psicológico e psiquiátrico o responsável por tão vil ataque. Porque para o pseudo, se alguém o contradiz é porque está doente ou 'está mal consigo mesmo'. Permitam-me fazer do mesmo juízo: o pseudo normalmente é filho de Pessoas Normais e Cultas, como professores universítários. Vive em zonas como Cascais ou na Foz do Douro, e o seu maior problema é não conseguir tirar a carta, pois desespera enquanto não puder conduzir o Grand Cherokee que recebeu quando fez 15 anos. O pseudo vive neste mundo cor-de-rosa, mesmo quando é freak (uma das mais interessantes espécies de pseudo). O pseudo é feliz porque é ignorante, e é como tal que consegue ver a infelicidade dos outros, do cimo do seu altar de felicidade e ignorância.
O pseudo é portanto, o símbolo maior do absoluto desrespeito pelas pessoas. Mesmo quando se inscreve como militante no Bloco de Esquerda ou em qual for o partido 'du jour', o pseudo é, internamente, um nazi. Pode 'achar piada' à convivência entre vários povos, mas repugna-o a hipótese de co-existência entre pessoas vindas de vários níveis culturais. Um bom jornalista que escreva artigos culturais no JN sabe que o jornal tanto pode ser lido por um professor de filosofia que dorme 2 horas por noite para poder ler os livros que tem na tua vasta biblioteca, assim como pode ser lido pelo Beto, trolha, e guarda-redes do Desportivo da Freixeda, no café da aldeia enquanto bebe uma cerveja Cristal e ouve a performance da Ana Malhoa n''Os Reis da Música Nacional'. O bom jornalista sabe escrever um artigo que, apesar de lidar com temas complexos, não é algo de indecifrável para o Beto. Sabe ser simples e objectivo - para quê decorar o texto com expressões inúteis que nada acrescentam a não ser torná-lo mais difícil? O mega-pseudo, porém, como nazi que é, cria algo que até o Salvador Dali consideraria complexo. Sente-se enojado com a hipótese de a cultura se democratizar. Acha repugnante poder um dia ver um trolha de cerveja na mão a seu lado na inauguração de uma galeria, comentando "Este quadro é muito parecido com as obras do Keith Harring, mas não tem a mesma vivacidade, não acha, ó chefe?". O pseudo acha que em vez de se educar o povo, este deve é ficar com o Big Show SIC, pois está absolutamente convencido que a inteligência só existe nas elites.
Em suma, o que falta ao pseudo? Respeito por quem não sabe tanto e humildade, sem dúvida. Objectividade, também, e muitas vezes um pouco de verdadeira cultura. Não basta dizer que se sabe as peças de Oscar Wilde de cor, nem basta sequer sabê-las mesmo. Quem sabe mais tem o dever de pôr os seus conhecimentos em uso, não para si mesmo, mas para ajudar os outros. A isto chama-se progresso.