Orwell em fuga
Há dois dias que não saio do meu quarto de hotel. Sinto o cerco a apertar-se. É noite e opto por não acender a luz. Não estou cá. Não estou em lado nenhum. Mesmo num cubículo de um 45º andar de um de muitos monstros de betão desta cidade no fim do mundo, dificilmente me posso sentir seguro. Estou sentado na cama, descalço, olhando para os sapatos que esperam ser calçados à minha frente. O papel de parede vermelho-floreado parece azulado quando iluminado pelos gigantescos anúncios em vídeo que ocuparam a carcaça do Hotel Ryugyong, a estrutura mais alta de Pyongyang, construída nos tempos da Ditadura. Nem vale a pena ligar a televisão. Neste hotel ainda mantêm os aparelhos de frequência fixa dos tempos passados, que agora passam 24h de anúncios comerciais por dia em vez das 24h diárias de propaganda comunista.
Os meus sapatos esperam ser calçados. Calma, já lá vou. O cerco aperta-se, tenho que sair daqui. O gigantesco ecrã colocado a dois quarteirões daqui mostra um trailer do mais recente filme de acção vindo de Bollywood. Penso como seria cinemático se pelo meio de todas aquelas explosões em vídeo de alta-definição um agente da NRA entrasse pela janela do meu quarto e pusesse fim ao meu sofrimento por intermédio da sua velhinha M-16. Tenho que sair daqui, mas estou hipnotizado pelo gigantesco ecrã. Será que quando Ridley Scott realizou BladeRunner imaginava que a sua Los Angeles de 2019 seria tão semelhante a esta Pyongyang à noite, uma Las Vegas vertical?
Já calço os sapatos. Só mais um bocado. Foi há poucos anos. Um belo dia, uma multidão invadiu o Congresso em Washington. Eu estava lá. Houve tiros. Políticos morreram. O Air Force One, com o Presidente a bordo, foi abatido por um AC-130, sobre as montanhas da Virgínia. Um grupo de elite dos Marines entrou na casa de férias do vice-presidente e assassinou todos os que estavam lá dentro. Uma forte explosão causou o pânico em Wall Street. No dia seguinte, vários Tomahawk-II lançados do Alabama destruíram grande parte da baixa de Nova Iorque. Um quartel militar no Texas foi atingido por bombas largadas por um B-2.
A Segunda Guerra Civil Americana duraria 40 dias, destruiria cidades e provocaria no total 3 milhões de mortos, grande parte das quais ocorrida no último dia quando os Estados Livres lançaram um ataque nuclear contra Houston. Mais uma vez, os Estados do Sul capitularam. O Partido Republicano foi ilegalizado e os seus simpatizantes perseguidos. Inúmeros administradores de empresas, quase todos apoiantes do Sul, tiveram sorte em ser condenados por traição a penas vitalícias, muitos outros simplesmente desapareceram. Imediatamente começou a reconstrução. A China e a Europa enviaram ajuda económica e humanitária. Teve lugar a Terceira Convenção Constitucional que recuperou a antiga Constituição do século XVIII. A experiência do Paraíso Ultracapitalista acabou. Os arquivos da polícia política e dos serviços secretos foram inundados por investigadores, e dia após dia surgiam grandes e chocantes revelações.
Assim não é possível censurar ninguém que com tudo isto não tenha reparado no que se passou no outro extremo do mapa. No mesmo dia em que a NRA fez explodir um autocarro à porta da Assembleia (o antigo Capitólio), chegaram notícias de que teria havido um golpe militar na Coreia do Norte. Durante duas semanas, mais nada se soube. Então, quando quase todas as cadeias televisivas transmitiam vezes sem conta imagens da assinatura da Terceira Constituição, houve apenas uma ou duas que foram capazes de arranjar tempo nos seus telejornais para mostrar um vídeo de baixíssima qualidade no qual o Grande Líder norte-coreano, vestido com um pijama às riscas, gritava por clemência perante três generais impassíveis, numa cena a fazer lembrar o julgamento de Ceauzescu na Roménia.
Calço os sapatos. Olho mais uma vez pela janela. Reparo nas pequenas luzes que cruzam o rio Taedong, que passa atrás da enorme pirâmide comercial que me ofusca. Ainda há poucos anos, Pyongyang era uma cidade escura, cheia de monstros de betão inabitados, ruas desertas, pessoas mecânicas. Quando o presidente sul-coreano recebeu o poder no norte das mãos dos três generais, a sua primeira decisão foi a de passar a capital da Federação Coreana para aqui. Os eficientes administradores do sul rapidamente substituíram os oficiais corruptos e incompetentes no Paraíso. Com eles vieram as empresas sul-coreanas e japonesas, e acima de tudo os investidores americanos que, após terem fugido à guerra e à regulamentação da economia, esperam poder recriar a Velha Ordem nesta terra virgem.
Com eles vieram exilados Republicanos e os terroristas da NRA. A bolsa de valores de Pyongyang, com um crescimento de 1600% nos últimos três anos, é a principal financiadora dos atentados nos Estados Unidos. Sim, é óbvio que a NRA está cá. Mas estão cá para receber o dinheiro e para preparar atentados, não para fazer caças ao homem. E no entanto o cerco aperta-se. Apesar de todos os meus documentos estarem em nome de Orwell G., atestado do sentido de humor das pessoas do Serviço de Protecção. Aperta-se. Apesar da minha fisionomia alterada. O cerco aperta-se, eles sabem que estou cá. Tenho que mudar de hotel.
Olho para os pés. Nunca fui pessoa de usar roupa e calçado formal, mas até o ar de James Bond faz parte do meu disfarce. Olho uma última vez pela janela. Vejo como tentam impingir a estes desgraçados telemóveis que já não se usam há 15 anos. O anúncio é típico. Ocidentais loiros e bem parecidos usam o telemóvel numa série de eventos divertidos que fazem a vida sem o telemóvel e a câmara de filmar parecer uma perda de tempo. A música que acompanha o anúncio deve ser um qualquer sucesso com 10 ou 20 anos, mas felizmente aos meus ouvidos apenas chega o suave easy-listening oriental que agora substitui a exaltada propaganda nas colunas do quarto, e que como quase tudo neste hotel não se pode desligar.
Uma fina linha de luz amarelada entra no quarto, e vai engrossando à medida que abro a porta. Não há ninguém nos corredores. Decido descer alguns andares pelas escadas antes de apanhar o elevador. Todo o edifício é envidraçado. Enquanto desço a escadaria, reparo no tamanho da cidade, que consigo ver melhor sem aquele monstro carregado de anúncios a tapar a vista. Toda aquela gente que vivia na mais absoluta miséria nos campos veio tentar a sua sorte aqui, infelizmente sem grande sucesso na maioria dos casos. Um dirigível paira no ar por cima de um grande edifício. Enquanto todas as outras vias de comunicação não estiverem a funcionar em pleno, o dirigível e o barco são os transportes utilizados para abastecer a capital dos preciosos bens agrícolas vindos do sul e dos outros países.
No 33º andar entro num elevador. No átrio do hotel, ricamente decorado em tons vermelhos e negros, coloco o cartão de acesso do meu quarto no receptor de check-out. Instantes depois, o mostrador no meu pulso assinala os euros que são descontados à minha conta. Quando saio do hotel, deparo-me com multidão de turistas em torno de uma estátua com 40 metros de altura do Grande Líder. Todos os edifícios têm placards com palavras de ordem comunistas, e dos altifalantes sai A Internacional. É o ambiente surreal típico da Kimsonglândia, o parque temático construído pelos chineses que transporta as multidões de turistas para os dias anteriores ao Golpe. Conseguem recriar quase tudo, menos a escuridão e a desolação. Tenho mesmo que sair daqui. Encaminho-me para a estação de metro mais próxima. Pelo caminho encontro vendedores ambulantes, viciados em heroína, jovens que distribuem cartões de entrada nas discotecas e prostitutas. Imensas prostitutas. Nas ruas de Pyongyang toda a gente parece querer alguma coisa. Só os estrangeiros parecem respeitar o anonimato. De repente sinto um formigueiro no meu pulso. Olho para o visor que indica uma chamada anónima vinda dos Estados Unidos. Penso em atender.
- Orwell?
- Claudia.
Os sensores colocados nos meus ouvidos conseguem transformar os movimentos dos músculos da cabeça num sinal de voz. Com a prática, é possível falar com alguém quase sem mexer a boca, o que me dá a maravilhosa sensação de comunicar telepaticamente.
- O Serviço está preocupado contigo. Devias ter apanhado o avião para Xangai. Que fazes em Pyongyang?
- Queria conhecer isto. Vim como turista, até me registei num hotel na Kimsunglândia.
- Mas estás num ninho de víboras. A cidade está cheia de agentes. Por favor sai de Pyongyang.
- Estou seguro aqui. Fico mais dois ou três dias, depois volto para os Estados...
- Nem penses em por os pés aqui nos Estados Unidos! Matam-te mal saias do avião. Vai imediatamente para Xangai, regista-te no Sheraton e espera por um agente nosso.
Ia a esboçar uma resposta, mas Claudia tinha desligado. Tenho os meus motivos para ficar aqui. A estação de metro chama-se Paz e Amizade. Todas as obras construídas pelo antigo regime têm nomes assim. Paz e Amizade, Progresso, Trabalho, Revolução. Finalmente saio no Paraíso. Aquando do Golpe, os primeiros visitantes consideraram esta estação a mais bela do mundo. Ricamente decorada com mármore, ouro, madeiras da melhor qualidade, e nenhum dos típicos murais revolucionários. Era afinal uma zona proibida onde só as elites entre as elites podiam circular. Eles não precisavam de ver propaganda, pois eram eles que a faziam. Agora, enquanto subo nas escadas rolantes, vejo como foi vandalizada. As paredes encontram-se cheias de graffiti, o ouro, os mármores e as madeiras valiosas foram sistematicamente saqueados, os candelabros do tecto estão todos partidos e agora a luz provém de lâmpadas fluorescentes. No entanto, fora da estação, encontro o bairro governamental ainda intacto, salvo as estátuas decapitadas e as marcas dos slogans que outrora existiam nos prédios mal disfarçadas pela tinta. Os homens vindos do sul decidiram fazer aqui a capital de toda a Coreia, e quase todos os prédios se encontram iluminados a reconstrução de meio país exige que se trabalhe 24h por dia.
Entro no hotel Daewoo Palace, e requisito uma suite no 39º andar. Enquanto me encaminho para o meu novo quarto, reparo na absoluta banalidade do hotel, construído já após o Golpe e que partilha daquela deselegância pragmática que é o cunho do design e da arquitectura asiáticas há bastantes anos. A suite tem todos os luxos de cinco estrelas, mas dificilmente tem o encanto dos hotéis europeus. Ao menos o hotel na Kimsunglândia era mais personalizado, apesar da televisão que só tinha um canal e da música que não se podia desligar. São onze da noite. Olho pela janela e vejo todos aqueles logotipos de neon na paisagem. Marlboro, Red Hat, Sony, CNN, Google, GM, Philips, Pepsi, Atari, Hyundai, Chase, HSBC, Windows. Muitos pertencem a empresas que viram os seus bens nos Estados Unidos nacionalizados. Olho melhor para as torres iluminadas do Governo coreano. Olho para o mostrador do meu pulso e envio uma mensagem encriptada.
Minutos depois, enquanto retirava uma garrafa de whisky no minibar, alguém bateu à porta. Três pancadas, depois mais duas, depois outras três. Abro a porta. O visitante faz-me uma vénia e eu retribuo.
- Senhor Ahn. Posso oferecer-lhe uma bebida?
- Um Martini por favor. Estamos em segurança aqui, senhor Orwell?
- Da minha parte sim. Espero que a sua gente esteja a tomar todas as precauções.
Enquanto preparo a bebida, olho para o prédio em frente. Quase que consigo ver os agentes que vigiam esta suite.
- Não preocupe. Tem o disco?
- Os agentes do Serviço de Protecção dos Estados Unidos estão muito activos na Ásia, o que é óbvio que não convém ao vosso governo. Tenho fortes razões para suspeitar que eles andam a proteger a NRA, e de que me tencionavam entregar aos terroristas.
Mal acabei de dizer estas palavras, senti uma voz dentro da minha cabeça.
- A proteger não. Nós somos um só.
Claudia. Este telemóvel que me implantaram deve ter um sistema qualquer de localização. Imediatamente atingi o senhor Ahn com a garrafa que tinha nas minhas mãos, sem lhe dar tempo de sacar a pistola. Agarrei-a e rebolei na direcção da casa-de-banho enquanto várias rajadas vindas do prédio em frente estilhaçavam os vidros e desfaziam a suite. Ouvi a porta da suite a ser arrombada.
- Não nos podes escapar Orwell. Entrega-te.
Senti que existiam apenas dois homens dentro da suite. Abri a porta da casa-de-banho e imediatamente atingi o primeiro. O outro fez um buraco na parede e teve o mesmo destino. Mais uma vez escapei da rajada vinda do outro prédio e consegui chegar ao corredor. Estranhamente, estava livre.
- Não nos podes trair, Orwell.
Com um forte gesto esmaguei o aparelho do pulso contra a parede. Mas a voz de Claudia continuava na minha cabeça enquanto descia as escadas.
- Todos os agentes de Pyongyang sabem onde estás.
- Vocês traíram a Revolução.
- Estamos destinados a ser um Império, e não vamos deixar um bando de libertinos fazer da América o que quer.
- Vocês oprimiram toda a gente e formaram uma oligarquia. Traíram os nossos ideais.
- Orwell, não podes ganhar. Rende-te.
Enquanto descia as escadas o mais rápido que podia, repetia-se na minha cabeça todo o drama ideológico da Guerra Civil. A Democracia contra o Império. A NRA até já compra serviços governamentais.
Estranhamente, mais ninguém me veio impedir de fugir. Claudia calou-se. Concerteza querem ver a quem é que agora vou tentar vender o disco com a lista de agentes do Serviço. Os coreanos revelaram não ser de confiança. Saí do hotel pela porta principal, e ninguém me veio deter. Tirei o disco do bolso da camisa e atirei-o para a sargeta mais próxima. Entrei na estação de metro, e apanhei a composição que vai para o aeroporto de Kaeson.
- Fizeste bem em deitar fora a lista, Orwell. Sabíamos que o irias fazer.
Claudia voltou a surgir na minha cabeça. Olhei à minha volta e vi que os três outros ocupantes da carruagem me vigiavam atentamente.
- Como vês, desde que te portes bem podes continuar vivo. Americanos mortos aí na Coreia causam-nos muitas chatices.
Sabia bem o que ela queria dizer. Que não podia contactar nenhum governo estrangeiro e contar o que sabia, e acima de tudo que nunca poderia voltar aos Estados Unidos. Saí antes de chegar ao aeroporto, e os outros ocupantes da carruagem seguiram-me. A estação, de ar decrépito, chamava-se Das Artes. Não fazia a mínima ideia de em que zona de Pyongyang estava. Entrei nuns lavabos de aspecto nojento. Felizmente o abastecimento de água funcionava na perfeição nesta zona da cidade. Abri a torneira do lavatório, e coloquei a orelha direita debaixo da água. Senti uma fortíssima dor no ouvido que me levou a bater com a cabeça. Terei que encontrar um cirurgião que me retire o implante inutilizado, mas isso fica para depois.
Saí imediatamente dos lavabos, esperando que a cadeia de comando do Serviço de Protecção seja suficientemente grande para os agentes que me vigiam mais de perto demorem a sacar das armas. Após ter uma distância relativa em relação a eles, saio da estação de metro e apanho um táxi. Dei várias voltas pelos arredores de Pyongyang e mudei de táxi três vezes antes de finalmente me dirigir ao aeroporto. Apanhei o primeiro dirigível de passageiros que saía da cidade, rumo a Daegu. E aí apanhei um avião.
Horas depois, cheguei ao aeroporto de Bagdad. E aqui estou eu, olhando para o quadro das partidas, à espera do primeiro supersónico para Nova Iorque.