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Weblogs II

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 15.03.2003

Aqui no Cafeína gostamos de arranjar problemas de vez em quando. Quando a letargia aperta, o site já só é actualizado ao fim-de-semana e três comentários num artigo parece um belo número, isso significa que a altura chegou. Dá 'pica'. Escreve-se um artigo a insultar do piorio ou a Direita, ou alguns autores de weblogs (os dois alvos preferidos aqui da casa), e está garantido. Vinte comentários no mínimo, o dobro das visitas diárias, e a garantia de entretenimento ao responder aos mimos que as pessoas nos deixam no sistema de comentários. Sim, essa altura chegou mais uma vez. Andei a examinar um a um quase todos os weblogs presentes nessas listas que agora há e aqui apresento as minhas violentas, desrespeitosas e cínicas conclusões.

Até podia escrever um artigo que os corresse um a um, mas mais de duzentos weblogs é mesmo muita fruta. Prefiro assim falar apenas dos três principais problemas detectados, sem mencionar nomes e links de modo a não ser assim tão mau quanto podia. E sei que não preciso, pois os visados acabarão sempre por enfiar a carapuça.


Diários:

Nunca hei-de deixar de insistir neste ponto. Diários não são weblogs. Os diários até podem ser feitos com as mesmas ferramentas e num formato idêntico, mas não são. E raios partam o Blogger por ter vindo esbater uma fronteira que antes era evidente para toda a gente. Sim, sou muito tolerante mas entre weblogs e diários é necessário um apartheid. Porque quem sabe um mínimo de sociologia e de teoria da comunicação sabe que todos os meios (ou media) são nichos ecológicos que podem ser destruídos. Os weblogs são infinitamente mais importantes e valiosos do que os diários de teenagers solipsistas e a contaminação do ecosistema está a fazer com que muita gente abandone os weblogs e se dedique a outras coisas, enquanto os diários são uma praga que alastra.

Além de que são inconscientes. Hoje em dia tudo o que é colocado na internet é um registo permanente - mesmo que apaguemos o site ele permanece nas caches e de certeza que quando tivermos 30 anos não vamos querer que o nosso diário adolescente que tivemos o mau gosto de colocar na net volte para nos assombrar. Os diários são para ser privados, senão são reality-show. E se sou crítico do Big Brother, tenho que julgar os weblogs pela mesma bitola.

E além disto há a questão do senso comum. Ninguém quer saber que foste ao cinema com a tua namorada. O que querem é saber o que achaste do filme. Ninguém quer saber que passaste a tarde com A., B. e C. num café. O que querem é saber se esse café é um sítio agradável para se estar.

Vítimas da moda:

Se há algo que me chateia profundamente são aqueles weblogs que ainda são piores que o Acontece. São weblogs em que tudo é bom. E pior, tudo é bom e perfeitamente em sintonia com a moda. Há um weblog que parece o suplemento Y do Público mas sem os textos, só com imagens de filmes e capas de discos e com uma frasezinha por baixo a dizer que aquilo é muito bom, sem uma verdadeira opinião pessoal e sem dizer porquê. Há outro que insiste na noite da moda, e em que dois em cada três posts parecem ser sobre as festas do DJ Kitten, de acordo com esta fórmula: primeiro um artigo que diz apenas "hoje é noite de Kitten" em letras garrafais, depois aparece outro artigo (lembrem-se que estamos a subir na página) que diz que a festa foi muito fixe e acrescenta uns tantos pormenores irrelevantes a tender para o diário privado. Tratar o weblog como uma página de vaidade onde apenas se escreve para atestar que se está na moda é para mim um exemplo máximo de mau gosto, e weblogs desses deviam ser proibidos.

Os amiguinhos:

Há também toda uma série de weblogs que apesar de por vezes não terem graves problemas ao nível do conteúdo conseguem ser extremamente irritantes. São os weblogs que andam em grupinho, que de alguma forma conseguem existir sem terem links para mais lado nenhum a não ser os weblogs dos amigos. Aqui a qualidade não interessa quando se colocam os links. O que interessa é que só os conhecidos têm direito a link. Ou seja, entramos num destes sites e onde quer que carreguemos não saímos do grupinho - são ilhas isoladas do resto da net. O que chateia, pois é graças a este tipos de atitudes misantrópicas que se formam as A-lists. O blogespaço (já que acho que a palavra 'blogesfera' tem algo de xungoso) deve ser aberto, tal como a internet. Não há lugar para comunidades fechadas de weblogs.


Na realidade, a cena portuguesa não é assim tão má. De facto, não tenho paciência para webloggers de teenagers que só se vêm a eles próprios e à sua angustia, para vítimas da moda e para aqueles que apenas falam dos weblogs dos seus amigos. Também há uma série de atitudes que são a evitar, mas que não são óbvias para quem começa - eu próprio também as cometi. È uma má ideia alguém estar constantemente a pedir desculpa por não escrever (um weblog não é um emprego) - embora um aviso quando se sabe que se vai estar fora não fique mal. Não fica bem falar constantemente das compras que se fazem, a não ser que nos dediquemos a uma crítica dos produtos. E não sou de modo nenhum fã da poesia nos weblogs, mas como não sou apreciador de poesia de qualquer modo talvez isto até possa passar.

Existem assim também um punhado de weblogs razoáveis. Alguns exemplos aleatórios são o Adrift, o Ghostboy, o mac.against.org (ligado à tecnologia), o Ponto Media (jornalismo), o Daily Bytes. Também é giro ver o picanço diário entre o Blog de Esquerda e A Coluna Infame. Um Blog Sobre Kleist é um exemplo giro do que se pode fazer num weblog mais especializado, assim como o Curva sobre futebol (e de um portista). E claro, também há os bons weblogs feitos pelo pessoal aqui da casa - excepto o do bruke, que não é actualizado há seis meses.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012