Desporto Rei
Passados doze anos, assistimos a mais uma grande competição do desporto rei. O verdadeiro desporto rei, aquele que relegou para a RTP-2 o importante jogo de futebol entre o FC Porto e o Panathinaikos no qual a equipa portuguesa podia fazer e fez mesmo história. De qualquer modo, o futebol não podia competir com o grande campeonato do desporto rei em curso. Até já houve campeonatozinhos (no Afeganistão, no Kosovo, na Somália) de que me lembro nos últimos anos com os quais o futebol pode competir, mas nunca com o desporto de grande espectáculo que são as Guerras do Golfo.
Tinha onze anos quando se deu a primeira Guerra do Golfo. Podia não ter as férias em Jupiter e os carros voadores que os livros e os filmes prometiam para 1991, mas ver aquela imensidão de pontinhos verdes a voar no céu verde de Bagdad enquanto o José Rodrigues dos Santos comentava ávidamente os acontecimentos deu-me a distinta sensação de "ena, estamos no futuro!". Agora, a ainda pior e mais ridícula cobertura por videofone ("Estou na guerra!" irá dizer o próximo anúncio da Vodafone Live) estranhamente parece ainda mais futurista.
Quando a guerra parece um misto de filme de ficção científica e jogo de computador, que pode fazer o futebol? Nada. Estamos perante o verdadeiro desporto rei. Aliás, estou perfeitamente convencido que o Durão andou a prestar vassalagem ao Bush e a envolver Portugal nisto tudo para que os Americanos o deixassem disparar um Tomahawk - quem é que não gostava de poder carregar num botãozinho e bum!, lá foi mais um dos tapetes do Saddam?
É um verdadeiro espetáculo desportivo. Dá vontade de estar no café com os amigos a beber umas cervejolas e a comer amendoins enquanto vemos a guerra e vamos mandando umas bocas que fazem rir o pessoal. E como num verdadeiro desporto, os principais comediantes são os comentadores. Paulo Camacho e Carlos Fino são os nossos homens no relvado, aqueles que vêm mais de perto todas as incidências do jogo, enquanto os delegados da UEFA (neste caso os simpáticos senhores do Ministério da Propaganda Iraquiano) os vão perturbando e dizendo que não podem estar ali. Mas enquanto os reporteres no relvado mantêm uma certa discrição, os Gabriel Alves e Jorge Perestrelos da guerra não perdem qualquer hipótese de se armarem em engraçados e fazerem figura de estúpidos. Em poucos dias o José Rodrigues dos Santos já teve oportunidade de se mostrar incrivelmente surpreendido ao descobrir que o Bush precisa que lhe pentêem o cabelo, e de demonstrar os seus conhecimentos de zoologia ao afirmar que viu um elefante no meio do deserto e ao confundir um rebanho de cabras com soldados iraquianos - claro que a culpa é do videofone da Vodafone.
E como o futebol, a guerra também tem direito ao seu Jogo Falado. A SIC conseguiu ser tão parola como a TVI (que fazia aqueles anúncios ao Marcelo Rebelo de Sousa) ao fazer um spot publicitário afirmando que 'o Nuno Rogeiro já é nosso!', mais um paralelismo entre a guerra (neste caso os comentadores) e o futebol (e os jogadores). As televisões enchem-se de 'gurus', 'experts' e 'chicos espertos' que aparecem repetidas vezes a mandarem os seus 'bitaites' sobre a guerra. Antes da guerra o Luís Delgado da SIC já tinha afirmado estar completamente convicto de que os ataques começariam dia 18, conseguindo com isto a fúria de um apostador chinês que se não fosse por ele teriam posto os seus cinquenta dólares no dia 19. Generais, tenentes e primos de soldados fazem previsões sobre os acontecimentos das próximas horas tão fiáveis como as meteorológicas. E não posso esquecer o bom momento de boa disposição do grande Rogeiro quando afirmava a Fernando Rosas que já tinha tido o cabelo comprido.
Até nos nomes. A selecção nacional de futebol baptiza sempre as suas incursões em estádios inimigos de 'Operação Itália', 'Operação Coreia do Sul' ou 'Operação República Centro-Africana', mas os militares Americanos, não tivessem eles Hollywood, inventam verdadeiras maravilhas, apesar de não compreender o que se passa actualmente: 'Tempestade no Deserto' parece o seguimento lógico de 'Top Gun' e 'Liberdade Duradoura' tem ar de grande épico. Mas 'Choque e Pavor'? Ou 'Choque e Espanto', já que as televisões portuguesas não se entendem quanto à tradução? Que raio é isto? Iriam ver um filme com este nome? Tal como nos outros desportos, a guerra tem que promover devidamente os encontros.
Esperemos que haja mais momentos memoráveis nos próximos dias. O profissionalismo fascista da CNN e da BBC faz a guerra parecer algo terrível que os Americanos apenas travam a contragosto. Tenho assim que agradecer à RTP e à SIC (não agredeço à TVI que interrompe a guerra para por telenovelas) por esta grandiosa cobertura da II Guerra do Golfo, o maior espetáculo desportivo de que há memória.