Consciência envenenada
No último capítulo do livro O Gene Egoísta, o biólogo inglês Richard Dawkins introduz uma nova forma de olhar para a nossa cultura. Com o conceito de 'meme', o cientista designa todos os fragmentos e ideias que formam a cultura humana. Coisas como a monogamia são memes. Ideias como o socialismo também são memes. E também o são o refrão da última música da Madonna, a religião cristã, a ideia de Inferno, o ateísmo, o racismo, o Emplastro-Animal, o Mário Soares e a moeda de dois cêntimos. Bom ou mau, tudo o que encontra lugar nos nossos cérebros é um meme. E assim, Dawkins introduz também o conceito de 'memepool' para designar o conjunto de tudo o que forma a cultura humana, de todos os memes. O memepool é a consciência colectiva da humanidade. E actualmente, esta consciência está a ser envenenada.
Os meios de comunicação social são assim poderosas seringas que injectam directamente os seus memes no memepool global. Se analisarmos bem, é esta a mais poderosa forma de dominação dos Estados Unidos, mais que a força militar. É o acesso directo que os políticos e a indústria da comunicação americana têm ao nosso consciente colectivo. E é através deste acesso directo que actualmente se difundem os memes venenosos e virulentos, que nos arrastam assim para as mais perigosas das convicções.
Durante a belle époque da Administração Clinton, apesar dos ocasionais excessos da dominação cultural, este processo de injecção memética até estava a ser benéfico. Eram os anos do 'políticamente correcto'. Apesar de não ser possível mudar as mentalidades em tão pouco tempo o 'politicamente correcto' era uma boa tendência educativa. Apesar da hipocrisia que caracterizava muitos receptores e emissores, esta era uma tendência que poderia levar ao aparecimento de novas gerações realmente políticamente correctas.
Hoje a situação foi invertida da maneira mais aberrante. Com um governo que só por ser americano não é instantâneamente rotulado de fascista, hoje fluem nos meios de comunicação e nas mentes das pessoas ideias que seriam impensáveis há uns anos. O 'políticamente correcto' acabou, e hoje voltámos à cowboyada. A publicidade é sintomática: antes as empresas energéticas manifestavam falsas preocupações ecológicas com anúncios muito verdes, hoje a preocupação é com o 'power' em anúncios laranja-pútrido em que quase podemos sentir o cheiro a enxofre; os anúncios às cervejas pretas manifestam um racismo tão descarado que é quase cómico e apelam à nostalgia colonialista; recorre-se hoje mais à comparação e a hipercompetitividade é apresentada como uma coisa boa. Nos telejornais e nos jornais, políticos e cronistas dizem barbaridades bombásticas - tal como a mulher que se manifesta violentamente contra as mulheres na política ou o outro que diz que os políticos eleitos estão de facto acima da lei -, e se há uns anos a imparcialidade dos jornalistas era virtual hoje a parcialidade é descarada e todos falam e escrevem como se quisessem matar alguém.
A sociedade ocidental está hoje envenenada. Os medos exarcebados pelos media tornam as pessoas em presas fáceis para ideias aberrantes de radicalismo e preconceito. Impensável há uns tempos, hoje muitos defendem que a desonestidade quando praticada por muitos deixa de ser desonestidade. O ódio e a competição sem regras e sem escrúpulos andam hoje aliados ao obscurantismo e à falta de bom-senso.
Restam alguns focos de esperança. Ainda há quem pense. No outro dia, no programa humorístico norte-americano The Daily Show o apresentador Jon Stewart dizia "só o Texas não é anti-americano", facto revelador de como muita gente não se revê na actual contaminação do nosso consciente. E por muito poderosa que seja a política de estupidificação e medo global delineada pelos 'falcões' Cheney, Ashcroft e Rumsfeld e pelos corruptos CEOs dos grupos de comunicação, será em última análise a lógica económica a arrasar com este actual estado de coisas, pois nenhum produto como é a informação hoje em dia vende para sempre. Talvez a crise tenha mesmo aparecido na altura certa, para impedir a corrupção e a desonestidade de chegarem às últimas consequências.
Portanto, enquanto não temos a Administração Hilary Clinton para repôr o bom-senso, deixo aqui também a minha pequena barbaridade: Nós, os cidadãos das Colónias Ocidentais do Império Americano, exigimos o direito a votar para as Presidenciais Imperiais.