Paranóia Americana
Apesar do título este artigo não visa os Estados Unidos mas sim Portugal. Mais propriamente, visa as paranóias anti e pró-americanas que se espalham no nosso país envenenado por demagogias, radicalismos e uma profunda falta de bom-senso que roça a estupidez militante. É que se eu ler num jornal perfeitamente insuspeito como o Público uma notícia sobre o julgamento de Berlusconi e exprimir a minha opinião de que este é um bom exemplo de que a corrupção ao mais alto nível ainda existe em Itália, ninguém certamente irá dizer que sou anti-italiano. Se do mesmo modo falar de um modo depreciativo dos casos que só se souberam após a morte de Mitterrand, ninguém será insensato a ponto de dizer que sou anti-francês. Mas se ouso manifestar a minha opinião de que a entrega de importantes negócios na reconstrução do Iraque à Halliburton - empresa que foi até recentemente gerida por Dick Cheney - parece um nítido caso de corrupção, metade de Portugal cai-me em cima acusando-me de ser anti-americano.
Como é possível? Serão todos os notáveis de todos os quadrantes políticos norte-americanos que se manifestam contra estes comportamentos na realidade agentes comunistas a soldo do Saddam bin Laden ou lá como se chama? Não quero com isto dizer que o anti-americanismo não existe. Afinal ser anti-espanhol foi moda durante séculos e do mesmo modo que existem infelizmente fenómenos como o racismo e o sexismo, do mesmo modo que ainda há muito anti-soviético quando a URSS já nem existe, também há alguns indivíduos pouco inteligentes que confundem todo um povo (ou povos - afinal são 250 milhões) com a sua liderança, além de se esquecerem de dar o desconto devido pelo problema português que consiste em importar apenas o pior dos outros países (se assim não fosse haveria muitos mais Burger Kings que McDonalds). É fácil reconhecer os anti-americanos naquele partido apegado a uma ideologia contraditória, irrealista e desactualizada, ou na carneirada para quem ser anti-americano é 'obrigação de artista', aqueles mesmos que são os objectos preferenciais dos agentes provocadores do sistema que de bandeira do Iraque e slogan bizarro em riste incitaram à violência com o objectivo de desacreditar protestos legítimos e justos.
Mas posto isto, os Estados Unidos também não podem ser um Santo dos Santos em que o seu governo é dotado de uma infalibilidade papal, um país à parte acima das leis e regras a que se devem sujeitar os outros países. Há gente para quem criticar nos EUA aquilo que essas próprias pessoas criticam no nosso próprio governo é uma blasfémia, um grave sacrilégio. Bem pelo contrário. A dominação dos EUA, seja positiva ou negativa, é um facto, e assim a responsabilidade do seu governo é global. É inevitável sermos afectados pelas políticas e pelas tendências americanas, e assim teremos que tomar parte na discussão e debater profundamente o que se passa antes que o nosso governo se limite a ratificar as leis aprovadas em Washington.
É lógico que casos como o de Felgueiras também acontecem nos EUA, pois nenhum país é perfeito. Não podemos ver aquilo que se passa nos EUA fora do seu real peso, não podemos generalizar. Mas também não podemos permitir que maus exemplos vindos dos Estados Unidos levem a uma generalização de práticas condenáveis, pois é óbvio que o exemplo americano é muito mais forte do que o exemplo de outro país.
Afinal, como é possível ser anti-americano? Somos todos americanos! Não podemos é deixar que as etiquetas que muitos nos tentam impor censurem a nossa capacidade crítica.
Mais uma nota: talvez ligada ao fundamentalismo pró-americano da direita, mais real que o suposto anti-americanismo da esquerda democrática, esteja a raiva e a crispação que estranhamente muita gente de direita tem manifestado desde que o PSD e o PP chegaram ao poder. Se antes quando o governo era do PS a oposição parecia ter um comportamento regular, agora que essa oposição está no poder parece haver um movimento cheio de raiva no sentido de 'matar a esquerda', como se quase 30 anos depois resolvessem levar a cabo uma terrível 'vendetta' pelas injustiças que o PCP cometeu a seguir ao 25 de Abril. Sejam os dirigentes do PS actualmente visados no caso da pedofilia realmente culpados, veja-se o modo como em apenas três dias tudo evoluiu, e compare-se com o passo de caracol e com o obscurecer mediático do caso Paulo Portas. Um 'decapitation strike' de fazer Donald Rumsfeld roer-se de inveja...