A Baixa apodrece
Durante esta última semana estive a trabalhar na rodagem de uma curta-metragem em 16mm que consistia num pequeno drama passado no camarim de um teatro. Optou-se por rodar num local já existente em vez de construir um camarim em estúdio, e a produção conseguiu que fôssemos para o Teatro Sá da Bandeira. Ficámos assim confinados aos camarins e à área atrás do palco, uma vez que entre o meio-dia e a meia-noite o Sá da Bandeira é a sala de cinema na cidade do Porto com o maior número de sessões diárias de filmes pornográficos. Ainda bem que o filme não tem diálogos e todos os outros sons vão ser gravados em estúdio.
Apesar de estarmos a trabalhar atrás de uma tela onde constantemente passavam os tais filmes hardcore, o trabalho correu relativamente bem. Mas o mais curioso foi o contacto com as pessoas que tomam conta do velho teatro. O senhor que nos mostrou como ligar duas extensões eléctricas com um nó para impedir que as fichas se soltassem pode dizer com um imenso ar de satisfação "foram 40 anos a montar luzes em teatro". Tive pena do projeccionista, um idoso de quase 90 anos que desde criança trabalha na projecção de filmes, agora relegado para o mais baixíssimo escalão da projecção vídeo de filmes porno, que falava com imensa nostalgia dos velhos tempos em que havia imensos filmes 'a sério' para serem vistos na Baixa portuense.
Como as coisas chegaram a este ponto? Podem-se culpar os shoppings e os megaplexes e os seus sistemas de projecção controlados por computador e criticar o progresso tecnológico que nos encaminha para a projecção digital e o fim da película dentro de 10-15 anos. Mas serão estes factores os culpados? Afinal, os cinemas nos centros das cidades estão de boa saúde no resto da Europa e foram capazes de se modernizar com as tais telas curvas e os sistemas surround xpto que nos levam aos centros comerciais. A culpa no fundo é de todos os factores que desertificam o centro do Porto levando ao fecho não só dos cinemas, mas das lojas, dos escritórios, e ao emparedamento das casas.
Sejamos concretos: a Baixa portuense é um sítio desagradável. É um sítio bonito quando há sol, mas há sempre a desconfortável percepção que alguém nos quer alguma coisa quando circulamos por lá, e a isto junta-se o trânsito caótico que leva a que os transportes sejam ineficientes. E isto é durante o dia quando ainda vai tendo gente. Durante a noite, ninguém quer lá por os pés. É um sítio perigoso. Ninguém quer lá morar, portanto ninguém tem cafés abertos à noite, e ninguém é louco de se meter lá quando pode ir ao cinema a um sítio seguro e com parque gratuito. O problema do trânsito: está tudo do avesso - os carros deviam ser mais limitados durante o dia, e deviam ter menos entraves à noite. Se vou de carro tomar um copo aos bares que resistem zona histórica, lá está o raio do arrumador (o suposto 'sucesso' do programa camarário é mais uma bela demonstração das mentiras do Rui Rio), e ou estou a arriscar-me a ver o carro riscado e a ser assaltado, ou a pagar mais pelo parque do que pelas bebidas, ou a isto tudo junto.
Como tudo se afunda ao mesmo tempo, também é preciso ressuscitar a Baixa com várias medidas ao mesmo tempo. Certamente não é investindo em passeios novos (e mal feitos) como os arquitectos autistas do Porto 2001 fizeram. É preciso espírito empreendedor - que não há - e medidas sociais e financeiras que o permitam. Até lá, os senhores do Sá da Bandeira terão que ir vivendo da pornografia. E como disse o senhor projeccionista "Andem rápido, que a seguir ainda tenho que ir fazer um trabalho ao Júlio Deniz!"