Assim vai a Arte
Os nomes dos eventos e de alguns intervenientes não interessa. Uma rápida pesquisa nos arquivos daqui do Cafeína de há dois anos é suficiente para os descobrir. Mas este é um caso que considero exemplar em relação ao que vai podre no meio artístico (e por extrapolação em toda a sociedade) português. Faz dois anos que enviei para a organização de um evento anual de divulgação de jovens criadores o projecto para uma exposição colectiva a realizar aí, respondendo assim aos anúncios que solicitavam o envio de projectos. O projecto, que consistia em dar a conhecer os trabalhos de um grupo de criadores fundado por mim e que até aí apenas tinha exposto num website, foi aprovado. Até aqui, tudo parecia bem.
De súbito vimo-nos confrontados com um prazo reduzidíssimo para a montagem da exposição a partir do momento em que pudemos conhecer o espaço. Pior ainda, este era totalmente diferente do do ano anterior, e para o qual o projecto tinha sido pensado. Fomos falar com o chefe da organização para nos ser atribuida uma sala, e o negócio parecia digno de uma mercearia: Ocuparíamos uma sala bastante espaçosa no rés-do-chão na condição de ser lá colocado um computador com o site. Pareceu-me logo aí que a nossa aprovação tinha sido fruto de um 'hype' em torno da web-arte. Mas o 'negócio' era bastante apelativo, e aceitámos a sala. Tínhamos apenas 4 dias, um velho computador, pouquíssimo dinheiro e uma sala de 8 metros quadrados num estado miserável. A instalação que tínhamos proposto no projecto era impraticável aqui, portanto a solução foi obtida em cima do joelho.
A sala foi limpa. O computador, devidamente transformado num 'quiosque' apenas com o site foi colocado ao fundo. As paredes revestidas a cartão, e sobre as placas colámos imagens retiradas do site com fita-cola, e uma BD feita pelo autor do Cafeínado. Com redes e placas de cartolina criámos um texto falso que parecia um cruzamento entre o Estádio do Bayern de Munique e uma cabana de escuteiros. Tudo admiravelmente pobre e precário. Para ser sincero não gostava de tão grande desvio em relação ao proposto, mas animava-me pensar que tínhamos feito uma boa metáfora para o baixo custo, precaridade e 'amadorismo' (no bom sentido) que acho caracterizar a essência da arte na internet.
É óbvio que errámos ao cumprir o prazo. Afinal o tal prazo para se montarem as exposições acabava mais de uma semana antes do arranque do evento, e quase todos acabaram de montar em cima desta hora. Só nós, os anjinhos civilizados, cumprimos. A exposição começou, e logo na inauguração fiquei preocupado com a incompreensão da nossa instalação. A sala, devido ao espaço amplo tornou-se uma sala de espera. Os vários items - nas paredes e o computador - não pareciam relacionados quando a sala estava cheia, e neste estado a nossa instalação parecia realmente algo feito por putos da primária sem jeito nenhum. A unidade estava restaurada nos outros dias menos movimentados, mas mesmo assim preocupava-me a sensação de que a mensagem não estava a passar. A exposição acabou passado umas semanas sem grande feedback e sem qualquer tipo de repercussões. Era como se nunca tivesse existido.
Ora bem. Até aqui nada parece errado. A exposição correu mal. Fomos vítimas da ambição e da má preparação. É a vida. Mas o ano passado é que, como os americanos dizem, "the shit hit the fan". Passado um ano sobre o envio do projecto da tal exposição, voltei a enviar um projecto para realizar uma exposição. Desta vez com a devida humildade, não pedia nada mais que uma parede para expor uma dúzia de fotografias, em pequeno formato. Uma amiga minha que fez parte da exposição do ano anterior, enviou também um projecto individual, também na área da fotografia. E, curiosamente até, recebemos cartas a dizer que os nossos projectos foram aceites.
Até aqui tudo bem. Aparentemente. Mas o desenlace foi rápido. Na altura em que a carta dizia para irmos lá a fim de preparar a exposição, eu e essa minha amiga aparecemos, carregando as nossas fotos devidamente preparadas - as minhas cuidadosamente coladas sobre cartão preto, as da minha amiga (impressas num formato maior) coladas sobre k-line. Foi-nos então dito que havia poucos espaços livres. Fomos ver o que havia, todo o tipo de desculpas foi inventada para não nos serem cedidas as paredes que estavam desocupadas. Não podíamos pregar nas paredes. Também não podíamos usar 'powerstrips', porque as paredes tinham sido pintadas. Pendurar do tecto estava fora de questão. Vimos todas as hipóteses e conclusão, não podíamos fixar as nossas fotos de maneira nenhuma. As paredes dos corredores eram para ser mantidas livres.
Acabaram por nos oferecer - e apenas para os segundos quize dias da exposição - um cubículo que nem um metro quadrado devia ter, uma dispensa por baixo das escadas. Talvez fosse suficiente para expor lá as minhas fotos, mas nunca daria para nós os dois. Regressámos ao 'escritório' da organização para dizer que íamos tentar pensar numa solução, quando assistimos ao diálogo entre o 'boss' e um velho de ar elitista que entra naquele evento de jovens criadores carregado de fotos imaculadamente encaixilhadas, perguntando onde pode expor as suas fotos. O 'chefe' primeiro responde que pode expor em qualquer parede livre. E quando o 'jovem' lhe pergunta se pode pregar - acrescenta, naquilo que nos pareceu um involuntário pormenor sádico, que trouxe um martelo -, a resposta foi um relaxado "claro, esteja à vontade"...
Eu e a minha amiga passámos o resto da tarde num café a digerir a injúria com todo o tipo de falatório denegrindo o evento e todo o resto do meio artístico, e termos como "cabrões chupistas corruptos de merda" fizeram parte do diálogo. Decidimos enviar um e-mail cheio de dignidade a anunciar que já não iríamos expor nesse evento, conseguindo eu convencê-la a omitir a frase que dizia "Vaçam V.Exas. o obséquio de ir para o caralho". Sim, estávamos obviamente bem lixados com a situação. O último capítulo desta história aconteceu quando passei no evento no dia seguinte à inauguração, deparando-me com tralha exposta nos tais corredores interditos, e coisas pregadas e coladas às paredes. Mas não me surpreendeu.
Mais tarde, soube-me a uma pequena vitória conversar com pessoas que tinham visitado o evento e o tinham achado 'demasiado comercial', apelidando a organização de 'vendidos'. Mas a realidade é que este tipo de comportamentos e discriminações é o dia-a-dia da chamada 'cena artística', supostamente feita de pessoas muito porreiras, tolerantes, egalitárias e inteligentes. Pois teria compreendido um 'não' depois do fiasco do ano anterior. Mas uma aceitação seguida de uma proposta para nos deitarmos ao lixo é a mais pura hipocrisia, vinda de gente que ainda por cima se julga superior à norma.