Vídeo digital para quem não percebe nada
Antigamente para se montar um vídeo era necessário algum equipamento, pelo menos dois 'decks' (videogravadores com mais botões), um controlador (uma daquelas mesas com muitos botões e 'alavancas') e dois monitores (ou duas televisões com menos botões e mais caras). Mas com o advento do DV (vídeo digital) tudo se tornou mais fácil: Agora basta ter uma câmara de vídeo e um computador, e qualquer um pode pegar nas filmagens das férias e torná-las ainda mais horrorosas mais facilmente. Ou se calhar, quem sabe, alguns de vocês até podem fazer coisas giras. Para qualquer uma das vias só é necessário saber uns conceitos básicos da técnica, e tudo o resto é prática, experimentação e jeito.
CÂMARA:
Para trabalhar com vídeo digital precisamos - surpresa - de uma câmara de vídeo digital. Recomendo assim a Betacam Digital que custa apenas 6500 contos... não, na realidade não é preciso tanto. Quase todas as câmaras de vídeo vendidas actualmente têm saídas digitais, e é possível encontrar alguns modelos por pouco mais de 100 contos em lojas de electrodomésticos. Existem diversos tipos de câmaras digitais - MiniDV, Digital8, DVCAM, MicroMV, etc. - mas a diferença, sem entrar em subtilezas técnicas, são as cassettes. As câmaras MiniDV são as mais comuns e portanto são as que eu recomendo para uso doméstico. As Digital8 supostamente são compatíveis com as antigas cassettes Video8 e Hi8, mas vão por mim: não tentem meter cassettes antigas nestas câmaras a menos que achem que a câmara precisa de umas férias no centro de reparações da Sony.
As câmaras mais baratas têm ainda a questão de não permitirem ao utilizador controlá-las manualmente, o que não é problema para quem diz "eu quero é tudo automático para não me chatear", mas é um problema grande para quem quer fazer boas filmagens. E outro conselho: não comprem câmaras pequenas. Sim, são giras e com jeitinho cabem num dos bolsos de trás das calças (sendo o outro ocupado pela carteira e pelo maço de tabaco), mas têm um problema - são uma merda, a menos que queiram filmagens que tremem tanto que dão vómitos. Sem ser necessário uma daquelas grandalhonas de colocar ao ombro, uma câmara maior treme menos.
Existe ainda outro aspecto a ter em atenção. Alguns modelos mais baratos têm uma ligação digital que funciona apenas como saída, ou seja, podemos passar imagens para o computador mas não podemos passar do computador de volta para a câmara. E acreditem que isso é um grande problema. Portanto, ao comprarem uma câmara, verifiquem sempre se o conector digital diz 'DV in+out', nunca queiram uma que tenha apenas 'DV out'. Um acrescento simpático pode ser também um conector S-Vídeo (uma coisa redonda com muitos pinos) também com capacidade de entrada ('S-Video in+out'), pois isto permite utilizar a câmara como se fosse um videogravador de alta qualidade ou passar para o computador material de outras fontes (como cassettes VHS) através da saída digital da câmara, sem necessidade de ter uma placa de captura própria no computador.
Quem quiser esbanjar dinheiro mesmo depois de ter comprado uma das tais Betacams, pode ainda comprar um VTR, que no fundo é um videogravador que em vez de cassettes VHS leva cassettes idênticas às da câmara, e que se liga ao computador além de se ligar à TV. E realmente, dá sempre bom aspecto um VTR ao lado do computador.
COMPUTADOR:
A verdade é que não é necessária uma grande 'bomba' para trabalhar em vídeo digital, a menos que queiram fazer bastante uso de efeitos especiais com programas como o Adobe After Effects, cujo poder permite destruir a beleza de uma imagem para lá do imaginável. Eu trabalho com um PentiumIII a 450MHz e 256MB de RAM e lá vou fazendo umas montagens. Existem no entanto componentes obrigatórios que o computador tem que ter. Em primeiro lugar, o computador tem que ter uma entrada Firewire que permita a ligação da câmara. Os Macintoshes mais recentes têm-nas de origem, assim como alguns PCs. Existem também algumas placas de som (!) que têm uma entrada Firewire. Em último caso, é possível comprar uma placa (as placas Firewire também são às vezes chamadas 'iLink' ou 'IEEE1394'), cujo preço, quer para computadores de secretária, quer para portáteis, deverá rondar os 40 euros. E estas placas normalmente têm três conectores, porreiros para ligar por exemplo discos duros externos além da câmara.
Há ainda que ter em conta os cabos. Existem ligações Firewire de 6 pinos e de 4 pinos, e precisamos de cabos de acordo com as nossas necessidades (existem, obviamente, cabos 6-6, 6-4 e 4-4, além de adaptadores). As câmaras normalmente têm conectores de 4 pinos, as placas para PC têm-nos de 6 (embora alguns portáteis tenham conectores de 4), e coisas como discos externos ou câmaras de vídeo de gama alta têm também conectores de 6. A razão destas diferenças é no entanto um mistério para mim - talvez seja um modo de se venderem mais cabos.
A placa, um cabo e a câmara são o mínimo indispensável para trabalhar com vídeo digital. Mas há também que ter em conta outro factor muito importante: o disco duro. Em primeiro lugar, cada segundo de DV transferido para o computador pode ocupar entre 3 a 6MB. Cada minuto ocupa em média cerca de 200MB e cada hora cerca de 12 gigas. Tendo em conta a capacidade dos discos de hoje em dia, até parece pouco, mas quando o software de edição começar a criar ficheiros duplicados por causa de todos os efeitozinhos que andaram a experimentar, vão desejar ter um disco maior. Além disto, embora seja possível trabalhar assim, é muito pouco recomendável trabalhar com os vídeos no disco onde está instalado o sistema operativo do computador, portanto ter dois discos é mesmo o melhor. E há ainda a questão da velocidade: um disco duro de 7200 rotações é pacífico, um disco de 5400RPM arrisca-se a não conseguir gravar todas as imagens que estão a passar.
É ainda essencial manter o computador limpo e asseado. Cinquenta mil programas a correr por trás (não é horrível ver um Windows com carradas de ícones ali em baixo do lado direito?) são a melhor garantia de um vídeo aos saltos. 256MB de RAM podem ser o suficiente (embora mais seja sempre bom), mas nunca se já estiverem cheios até rebentar quando acabámos de iniciar o computador. E não se esqueçam de desligar a internet (aquelas janelinhas do Messenger interrompem qualquer captura) e os 'screensavers', que também são uma chatice quando deixamos o computador a capturar vídeo sozinho.
SOFTWARE:
Existem bastantes programas de edição de vídeo para computadores caseiros. Os Macintoshes e os computadores com Windows já trazem programas bastante xungosos e limitados (há quem diga que são 'simples'), e aquelas revistinhas que trazem CD-ROM ou aquela torradeira USB que compraram trazem quase sempre um qualquer programa de montagem da empresa Ulead, e que quase sempre é uma bela merda. Prefiro antes coisas como o Adobe Premiere, o MainActor ou o SF Vegas (menos utilizado que o Premiere mas talvez mais simples, e bem melhor para tratar do som). Quem tiver Macintosh tem sempre o Final Cut Pro (como detesto Mac nem vou pôr link), e quem se aventura em Linux aparentemente tem o Cinelerra (que nunca utilizei mas aparentemente é bom). Não vou explicar como se usam - leiam a porcaria dos manuais por uma vez! -, mas a teoria é simples:
Em primeiro lugar há que começar a trabalhar direito. Estamos a trabalhar na Europa, onde se usa o sistema de televisão PAL a 25 frames (imagens) por segundo. E estamos a utilizar uma câmara de vídeo digital (DV). Portanto, antes de mais definimos o nosso projecto como DV-PAL para não haver chatices. Se o vídeo tiver o tamanho de 720x576 pixels é porque está tudo bem. Podemos também escolher se queremos o som a 32kHz ou a 48kHz. 48kHz é mais, logo melhor. Isto tudo faz com que o projecto esteja igual ao vídeo que gravámos, o que faz com que não haja necessidade de converter ficheiros, o que nos vai poupar imenso tempo. Senão vá, ignorem isto e vejam a cagada que é! Também há outra coisa a ter em atenção: se filmaram tudo em formato normal, usem o formato normal; se filmaram tudo em formato 16:9 definam o projecto como 16:9. Se têm das duas coisas, bem, então estão bem lixados porque ou umas imagens vão ficar esticadas ou outras comprimidas. Melhor, melhor, é nunca filmar nem trabalhar em 16:9, e arranjar maneira de pôr barras pretas no fim.
Posto isto, há que ligar a câmara ao computador e pô-la no modo em que dá para ver o que gravámos. Depois o programa deve ter uma parte onde se fazem as capturas. Aí existe uma coisa porreira chamada 'Device control' que nos deixa controlar as funções da câmara - play, stop, pause, rewind, etc. - a partir do computador, o que da primeira vez que vemos parece magia. E vamos reparar nuns números. Horas, minutos, segundos, frames. A isto se chama 'timecode'. Cada imagem que está na cassette tem o seu próprio timecode, a menos que tenham feito merda (ou a câmara seja uma) e andado a avançar a cassette à frente entre gravações. Aí terão várias imagens com o mesmo timecode na mesma cassette, o que é uma chatice. Hei, também detesto quando me acontece, ok? Agora desenmerdem-se!
Mas voltando onde estávamos. Nesta janela de captura é possível começar a gravar logo (basta carregar no 'play' e depois no 'rec') - mas não se esqueçam que cada minuto são 200 megas de disco -, ou podemos marcar (há de lá haver botões para isso) um timecode de início e outro de fim antes de fazer a captura - depois nunca se esqueçam de dar um nome ao ficheiro -; ou podemos fazer uma lista (normalmente utiliza-se o termo 'log clip') de timecodes de início e de fim, cada um com o seu nome de ficheiro, para depois deixar o computador a capturar tudo, mexendo na câmara como um robot obediente. Apenas nunca se esqueçam que a captura é um momento delicado, e que não convém que o computador esteja a fazer mais nada. Aliás, larguem o rato. E o melhor mesmo é sairem do quarto e irem tomar um café. Apenas mais uma nota: Nunca comecem a filmar o que vos interessa desde o início da cassette, deixem sempre pelo menos uns 30 segundos com nada que possa interessar (costuma-se filmar com o visor fechado mas talvez possam ter ideias melhores), isto para que quando estão a fazer a captura a câmara tenha uns segundos antes do que interessa para estabilizar a fita - normalmente os programas iniciam a captura uns segundos antes do que vocês definiram.
Depois de tudo capturado, os ficheiros de vídeo devem estar todos importados no projecto. Podem também importar mais vídeos do disco duro. Todos os programas de montagem são diferentes, mas em comum há sempre a 'timeline'. Colocando vídeos aqui na timeline (normalmente arrasta-se os ficheiros), é possível começar a ordenar a montagem. Existe sempre uma ferramenta de corte (normalmente parece sempre uma daquelas lâminas de barbear do tempo em que não havia Gilettes), que nos permite fazer isso, cortes no vídeo para deitar fora o que não interessa - ou colocar outro pedaço mais à frente. Muitos dos programas também têm uma janela de pré-visualização (ou como a gente diz, de 'preview') que nos permite cortar o que queremos do ficheiro de vídeo antes de o meter na timeline. E não se preocupem, que podem cortar à vontade que os ficheiros ficam intactos. É por isso que não é boa ideia capturar toda uma cassette de uma hora para aproveitar só 30 segundos.
E é isto. Há umas pistas de som de onde podem apagar o som das vossas férias (ninguém quer ouvir o que estão a dizer enquanto filmam) e colocar antes uma música qualquer. E claro, existem sempre os milhares de transições entre planos que irão experimentar até à exaustão até descobrirem que a única que vale a pena utilizar é o 'fade' simples. Efeitos e transições necessitam que seja feito um 'render' antes que possam ser vistos como o resto do vídeo, e posto isto, é só carregar no 'play' na janela de pré-visualização geral e ver o resultado do nosso esforço. Se a nossa câmara de filmar estiver ligada e tiver a tal capacidade de DV-in, é provável que consigam ver o vídeo no visor da câmara, e podem assim utilizar o 'rec' da câmara para o gravar em cassette.
É óbvio que isto não cobre tudo o que pode acontecer. Muito provavelmente há coisas que não vão funcionar bem. Mas é a vida: a experiência é proporcional ao equipamento destruído. Existem sites com imensa informação sobre o assunto onde podem aprofundar os vossos conhecimentos, mas tudo isto é inútil se não experimentarem. Parafraseando o outro: "make good muves"...