A armadilha das sereias
Ela era linda. Uma rapariga mesmo linda que conhecemos há uns tempos, algures. O físico enquadrava-se perfeitamente naquilo que a generalidade dos homens entende como uma gaja boa. E sem produção. E sem aquele nariz empinado que caracteriza muitas raparigas cujas dádivas da Natureza tornaram arrogantes. E ela tinha um daqueles sorrisos que se tivesse existido num certo momento da História ainda construiríamos templos a Vénus. E lá estava ela, algures há uns tempos. E veio conversar connosco. Os gestos eram perfeitos. A atitude, o aspecto, permitiam adivinhar alguém com gosto, interessante debaixo da superfície, onde o sangue, a carne e os nervos nos tornam todos iguais. Se naquele instante o amigo que estava comigo tivesse tido uma súbita necessidade de ir embora, eu teria passado a acreditar que coisas muito improváveis podem realmente acontecer, mesmo sem um Deus. No entanto, todo o Paraíso em câmara lenta acabou subitamente quando ela falou. Não, nada de mal com a voz, que também era perfeita. E a verdade é que ela não veio adamoestar os dois falhados que a olhavam. Não, pior: ela estilhaçou o Paraíso, pois ela revelou ser uma pessoa incrivelmente chata.
A minha teoria é que há pessoas que compreendem que podem morrer a qualquer momento, e assim aproveitam todas as ocasiões possíveis para relatar a estranhos as suas autobiografias. E que autobiografia: depois da óbvia e discreta (ou discreta e óbvia) e acidental menção de que ela tinha namorado, prosseguiu para nos contar tudo sobre o bizavô que coleccionava selos, a tia que aparentemente cultivava as melhores batatas da região, a prima em terceiro grau que tem problemas na coluna, a sua opinião de que a TVI é uma porcaria, devidamente fundamentada com os 332 argumentos que já todos conhecemos, e de como é realmente uma chatice não existir maneira de fazer com que a cerveja saiba bem num copo plástico. E tudo o que conseguimos dizer foi "sim, mas.." (sem completar as reticências), "pois, eu...", "é como...", perante a avalanche de monólogo irritante e aborrecido, inclusivamente mais chato que um filme com o Kevin Costner.
A meio da conversa decidi que ela se chamava Susaninha. Na verdade, uma das coisas que ela nunca mencionou (ou já tínhamos adormecido entretanto) foi o nome. Mas decidi que se chamava Susaninha, em homenagem a aquela menina muito irritante e chata dos cartoons da Mafalda. E depois acho que devo ter desmaiado, pois existe uma quantidade limite de aborrecimento a que um ser humano pode ser sujeito antes de ficar inconsciente. Toda a aparente perfeição da rapariga assumiu contornos de lenda grega. Se calhar era isso que as sereias faziam aos marinheiros - aborreciam-nos até à morte. Acordei e a rapariga tinha desaparecido, talvez para punir outros culpados de olhares indiscretos mas totalmente involuntários. O meu amigo fez aquele característico gesto de quem vai tentar enfiar o punho na sua própria boca, embora não tenha compreendido se como sinal de apreço à moça ou como tentativa de forçar o vómito depois de tal exposição a uma dose maciça de aborrecimento.