Arquivo Cafeína

O fim dos 'blogues'

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 18.09.2003

Coisa rara antes do reinício das aulas, hoje acordei cedo. E acordei com uma resolução a ecoar na minha cabeça: "Não irei sucumbir à tentação de escrever um artigo no Cafeína sobre weblogs." Sinto-me portanto extremamente aborrecido e frustrado. Mas uma sucessão de acontecimentos fez com que durante todo o dia tropeçasse em weblogs e temas relacionados, e acabou por conduzir a este artigo. À cabeça, o início do Encontro de Braga, já comentado com o devido cinismo no meu verdadeiro weblog, e que motivou a minha resolução de tentar estar calado. Mas mal saí à rua deparei com aquela primeira página do JN e senti uma pequena comichão no interior do crânio.

Depois estava eu a ver o telejornal e deparei com uma peça sobre o Muito Mentiroso. E lembrei-me que ontem ou anteontem fiquei chocado ao descobrir que o Gato Fedorento agora tem um programa na SIC Radical. A comichão já estava a ficar incómoda. A seguir ao jantar tive oportunidade de ler o tal artigo do JN e fui para os copos ver se me esquecia da comichão. Mas pelo contário, passei parte da noite a discutir com o Rot e o ziggy o estado actual do Cafeína, defendendo a minha decisão de incluir uma secção dedicada à culinária. Senti-me então como se tivesse uma colónia de formigas no cérebro. Mas pior foi ter chegado a casa e descoberto através do Fórum PTWeblogs que já existem weblogs pornográficos (e não me refiro a O Meu Pipi), aliás, nada mais que sites porno (e de má qualidade, acrescente-se) que se servem dos servidores do Blogspot. E quando esperava que a coisa ficasse por ali, decidi ver os registos do Cafeína e descobri que andava a receber visitas a partir de umas Comadres Blogueiras que decidiram atacar o Cafeína e o Eternos.org com humor de má qualidade que consegue ser mais enfadonho que uma sitcom com o Michael J. Fox. Vi vermelho, ouvi os tambores da selva, e quando dei por mim estava a escrever enquanto me mentalizava de duas coisas: o Cafeína não utilizará mais o termo 'weblog' para se descrever (a não ser para o Google porque isso dá jeito) porque/e os weblogs acabaram hoje. Mas vamos por partes:

O Encontro: que dizer? Para mim é óbvio que raramente se aprende o que quer que seja neste tipo de coisas, sendo o aspecto social da coisa o verdadeiro interesse. Dentro de dias teremos Gatos Fedorentos, Pipis, ex-Infames, Psicóticos, gente que Conversa Em Cafés a ser fotografada, com grandes sorrisos, através do espelho da casa-de-banho do Abrupto (1). É a infeliz condição humana, inclusivamente provada científicamente, de que a igualdade de oportunidades e a justa avaliação do mérito entram em colapso a partir do momento em que o meio conta com mais de 150 membros, ou seja, quando a nossa 'lista telefónica' fica cheia e as abstracções ocorrem, e que inevitavelmente beneficiam quem é dotado daquela estranha qualidade chamada 'carisma' ou quem por alguma razão se consegue fazer notar melhor.

É indesmentível que tive mais de dois anos para me ter afirmado a partir de um meio em que existiam apenas umas poucas dezenas de weblogs, e se não fosse a minha total falta de 'agressividade no social' (afinal nunca consegui sequer juntar todo o 'staff' deste site na mesma sala) - e de interesse em tal - o Cafeína poderia até ser um site tão conhecido como outros que andam por aí a meu ver sem qualquer qualidade que o justifique. Nunca me passou pela cabeça inventar uma 'press-release' e enviá-la para a comunicação social porque eu não funciono assim e sinceramente, acho isso badalhoco por qualquer razão que desconheço. Mas pelo menos assim sinto-me bem comigo próprio, o esforçado guardião de um projecto que agora tenta tirar partido do facto de ser pouco conhecido, um rumor do 'underground', o que quer que isso seja, se é que ainda existe. E uma vez que no fundo o Cafeína é um hobby, uma brincadeira irrelevante da qual nunca esperei fazer carreira, espero tirar daqui lições para nadar entre os tubarões do meio audiovisual, onde a coisa vai realmente doer. Ter três anos de experiência (ou como diria um sábio - o que eu não sou - "três meses de experiência repetidos doze vezes"") com um weblog, sempre envolvido em polémicas, dá-nos uma enorme aprendizagem sociológica, além de me ter feito muito pessimista e cínico.

O artigo do JN: A minha pequena vitória foi ter lido uma referência ao Tim Berners-Lee como o criador do primeiro weblog. Para me consolar de tudo o resto até penso ter tido alguma influência nesta interpretação, pois após ter descoberto que não fui de facto o primeiro 'blogger' Português (2) decidi recorrer à táctica da 'terra queimada' (já utilizada por webloggers estrangeiros nas suas discussões) de modo a retirar qualquer crédito a quem reclamasse a autoria do primeiro weblog, dando esse crédito ao homem que inevitavelmente está no topo da árvore genealógica, pois foi ele o inventor da web e a primeira pessoa do mundo a criar um site. E se pensarmos bem, um weblog nada mais é que um formato de organização de textos em ordem cronológica, e foi o próprio Berners-Lee que chegou à conclusão que a ordem inversa é a solução ideal para textos frequentemente actualizados. Talvez afinal a minha teoria até esteja certa.

No entanto o artigo do Jornal de Notícias fez o infeliz erro de escrever mal o nome do inventor. E como se não bastasse, faz uma grande confusão entre 'web log' e o trocadilho 'we blog' (3) que daria origem ao termo 'blog', acabando por dizer que 'blog' significa 'diário' ou 'registo' quando a palavra certa para isso é na verdade 'log'. Também opta por referir alguns weblogs duvidosos pela sua vulgaridade (entre outros que acho mais merecidos) como recomendáveis, e diz que o extinto directório Blogo pertence ao Sapo. E se virarmos a página aparece Pacheco Pereira, o 'Padrinho', com uma seta para cima por ter sido capaz de abrir uma conta no Blogspot. "Whaaa?"

As Comadres: Efectivamente este weblog fez ressaltar em mim uma certa paranóia, pois foi há mais ou menos uma semana que através de um chat discuti com uma conhecida (ou ex-conhecida nesta Nova Ordem) weblogger portuguesa várias possibilidades de subversão contra a invasão da comunidade dos weblogs Portuguesa por um exército de quarentões patrocinados por uma empresa que pertence ao império Google, que segundo algumas lendas urbanas é ele próprio uma fachada para um sistema de monitorização da internet da Agência de Segurança Nacional Americana (a NSA). De qualquer maneira uma das possibilidades discutidas foi a criação de um Blogspot anónimo, escrito por este mesmo que escreve agora, a dar porrada nos weblogs 'neo-ilustres' deste país que continua a provar que Eça de Queiroz sabia do que falava quando contou aquela história das corridas de cavalos n' Os Maias. E agora vendo as Comadres, fico com a sensação que alguém andou a escutar a conversa e resolveu começar precisamente pelo Cafeína.

O problema é, não tem piada e não sabe muito por onde pegar nas suas críticas. Erros ortográficos? Já alterei e programei de raíz tanta tralha, agora também querem corrector ortográfico? Alguns erros passa, paciência, começar por aí revela falta de coisas a apontar. Logo de seguida é atacado o design. Poderiam acusar o Cafeína de ser 'pesado', que é. De ter letrinhas pequenas, que tem. Mas implicar por ter utilizado no logotipo um tipo de letra curiosamente parecido com o Championship Manager 4, esse jogo que é um êxito com as crianças, é realmente estranho. Depois tem o mau gosto de criticar o meu próprio nick. Sim, Nice Guy Eddie, o nome do mafioso de Cães Danados é estranhamente confundido com outras coisas que só revelam a falta de conhecimento linguístico básico por parte de quem critica a falta de um 'n' em 'compreendê-la', o que resulta em algo que talvez, na melhor das hipóteses, provoque 'sorrisos amarelos' em miúdos do 5º ano. Parte finalmente para o número de utilizadores registados - 481 -, que considera extremamente baixo e vergonhoso. Será que quem escreveu faz ideia do trabalho que dá convencer alguém a preencher um formulário e ir ver o e-mail para se registar no Cafeína? Perto de 500 registos desde há 2 anos (quando foram introduzidos os registos) é excelente, e, embora eu não queira (nem vá) revelar a página que das estatísticas do site, posso adiantar que ocorreram mais de 100 mil visitas (representando 340 mil pageviews) desde então, o que equivale a um registo por cada 200 visitas (descontando que certamente há visitantes repetidos, nem que seja eu!).

O que vale é que eu tenho a certeza que as Comadres fazem isto com ironia.


Infelizmente, tudo isto no mesmo dia significa a morte do weblog, pelo menos neste presente estado de coisas. Há que observar certos sinais: o tal site porno que utiliza o formato weblog como forma de divulgação (e tenho a certeza de que já existem outros, a menos que haja Portugueses realmente pioneiros no lado mais infeliz da moda dos weblogs). O 'spam' generalizado que já atinge certos weblogs, explorando sistemas de comentários comummente utilizados da mesma forma que são utilizados os endereços de e-mail deixados onde não se deve. O estado caótico que a 'blogspotoesfera' atingiu com intermináveis cópias foleiras do Pipi e outros weblogs populares. Os encontros que servem apenas para travar conhecimentos, sempre com a obrigatória dose de interesse escondido. Os incontáveis artigos em weblogs sobre os próprios weblogs (sendo este mesmo, embora sem considerar o Cafeína um blog, mais um prego no caixão). Sinto, tal como no desastre da 'flashmob', que a corrente da moda está a virar e que brevemente os weblogs serão um capricho esquecido. E gente como eu, que se meteu nisto por gosto, voltará a ouvir bocas do género "mas qual é afinal a ideia de teres um diário na internet, és maluco?", uma vez que, talvez o aspecto mais trágico de tudo isto, mesmo com a cobertura mediática continuo a ter dificuldade em explicar às pessoas de fora o que é um weblog. É simples: é uma página de internet. Antes as pessoas punham fotos do seu gato nas suas páginas pessoais. Agora em vez disso escrevem textos como loucas.

O Cafeína assume-se portanto oficialmente como uma revista online, uma fanzine, ou outra coisa do género a partir deste momento. Não utilizarei mais a palavra 'weblog' ao descrever este site porque o Cafeína já não se insere naquilo que eu considero um weblog (no nosso caso trata-se apenas de um formato utilizado em partes do site), e em segundo lugar por causa da sua parecença perigosa com 'blogue', que adquiriu para mim um definitivo sentido pejorativo a partir de hoje. Continuarei como é obvio as minhas actividades mas não me reconheço mais nesta comunidade que acho que na realidade nunca chegou a existir.

Lanço um repto final: Segundo sei existem alguns webloggers por aí que não se têm estado para chatear mas têm umas boas histórias a contar sobre comportamentos lamentáveis e desprovidos de ética relacionados com lutas pelo poder, nomeadamente a obtenção de recomendações noutros weblogs e directórios, falsear de resultados de votações etc.. Já tive experiências do género (lidar com votações corrompidas) em pequeno grau e por isso nunca me quis meter no 'negócio' dos directórios e das críticas, mas penso que embora estas histórias infelizmente não nos contem nada que não soubessemos, talvez pudessem ser pedagógicas.


Adenda: Para encerrar de vez com a questão: ter um weblog em Portugal neste momento tornou-se deprimente. Desde sempre que existem weblogs bons e weblogs maus, mas o grave é que a promessa de reaver a anarquia funcional da Internet que existia no início desapareceu. Há gente por aí que gosta muito de utilizar o termo 'ressabiado' para me descrever, mas 'pessimista' e 'desgostoso' talvez sejam melhores, porque assitir à criação de estruturas sociais e descobrir como a meritocracia e a igualdade de oportunidades nem em comunidades 'hobbiistas' são possíveis é algo que arrasa qualquer pessoa que gosta do que faz. É fácil dizer que na realidade eu não tenho mérito. Tudo bem, é uma opinião. Mas nunca me mexi para impingir as minhas criações a qualquer poder mediático e sempre deixei que os visitantes me julgassem. Pelo contrário, agora temos webloggers que já são 'notáveis' a partir do primeiro artigo, e a visibilidade e as ligações mediáticas (é óbvio que algo vindo das Produções Fictícias, por exemplo, terá sempre fama mesmo que nada valha) destruiram a igualdade entre weblogs e a possibilidade de os visitantes escolherem e julgarem livremente. Os weblogs, que mais que um formato eram uma promessa, são agora apenas mais um ramo dos 'mass-media'. Os guardiões desta nova ordem chamam-me 'purista', 'ortodoxo' e 'ressabiado'. Tentam destruir a minha confiança com comentários anónimos e cobaredes como quem me quer obrigar a desistir. Acusam-me de ser contra a liberdade de expressão por fazer valer o meu direito a criticar, e no entanto não têm vergonha de agir como quem me quer erradicado da internet. Sinto-me triste e deprimido por descobrir que qualquer sociedade que se forma evolui de forma lamentável. E quero que a blogoesfera se foda.


Notas:

(1) Durante a fase de consolidação da 'A-list' Americana (1999-2000) houve o estranho fenómeno de webloggers famosos serem fotografados através do espelho da casa de banho de outros webloggers famosos, com o grandioso climax a ser atingido quando umas 20 pessoas foram fotografadas na casa de banho do Dave Winer, que é o Pacheco Pereira de lá do sítio (mas sabe programar).

(2) Cheguei a estar realmente convencido disto nos primeiros tempos do Cafeína, e admito que por ignorância minha, embora também tenha visto quem tenha tentado datar weblogs posteriores para datas anteriores (mas não vale a pena entrar em polémica por um facto irrelevante).

(3) Sabiam que segundo Peter Merholtz, o indivíduo que inventou o trocadilho de onde saiu a palavra 'blog', 'weblog' dever-se-ia ler "uíblogue" em vez de "uébelogue"? Ainda bem que a fonética não pegou muito...

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2013