Adeus Lenine!
Acho de facto muito apropriado o título de Adeus Lenine! Trata-se de uma história passada na ex-RDA no período curto entre a queda do Muro de Berlim e a Reunificação Alemã, quando dois filhos fazem de tudo para esconderem os acontecimentos à mãe, uma fervorosa comunista que acorda ao fim de alguns meses em coma, para tal chegando ao cúmulo de gravarem falsos noticiários televisivos. Muito apropriado Adeus Lenine!, porque segundo se diz o próprio Lenine teria sido enganado de forma semelhante às mãos de Estaline nos últimos dias da sua vida, uma vez que lhe seriam fornecidos jornais com notícias falsas elogiando o grandioso desempenho do então número dois, quando na verdade a Rússia estava em ruínas. Mas título à parte, Adeus Lenine! também é um bom filme.
Julgo que há qualquer coisa de encantador na Alemanha dos anos 80, seja no lado capitalista, seja no lado comunista. Um dos melhores filmes que vi na vida, uma pérola que reconstrói o lado capitalista da Alemanha em 1980, foi Paul is Dead, uma obra que está naquela classe de filmes que quero arranjar a todo o custo mas não encontro, realizada por um desconhecido Hendrik Handloegten. Goodbye, Lenin! do igualmente desconhecido Wolfgang Becker visa os últimos dias do outro lado do muro, entre 1989 e 1990, e também faz uma reconstrução soberba daqueles tempos - passe o personagem que usa uma t-shirt do Matrix. Sente-se uma espécie de nostalgia - a que sentem imensos Alemães de Leste - pelos tempos simples do comunismo, mas uma nostalgia realista, longe da propaganda: quase logo no início do filme testemunhamos uma violentíssima carga policial e a repressão levada a cabo pela Stasi.
E é esta nostalgia o tema principal do filme, que consegue o milagre de, dada a delicadeza da época histórica, ser totalmente apolítico. De um lado temos a nostalgia por um passado que não existiu - o idealismo comunista da mãe -, do outro a verdade dos rigores do comunismo. E a formar um 'triângulo ideológico' que funciona quase como o 'triângulo amoroso' tradicional, temos os excessos do capitalismo que provocam novos problemas. Talvez a virtude esteja no meio deste triângulo, com doses idênticas de idealismo, socialismo e capitalismo, com democracia à mistura...
Tecnicamente, trata-se de um filme bem conseguido, tirando o tal erro de guarda-roupa (que tendo em conta o descaramento até parece uma espécie de piada intencional). A narrativa desliza bastante e quando saímos da sala não nos damos conta das duas horas passadas. E reside nesta leveza aquela que é a meu ver a principal falha do filme, que é o modo como tudo é muito linear e simples, com acções e locais repetitivos, sem que consigamos compreender como é que as duas horas foram preenchidas na totalidade. Mas talvez seja uma questão de gosto: o filme consegue inclusivamente utilizar a mesma banda sonora (de Yann Tiersen) de Amélie sem se notar que esta está em 'segunda mão' -as reciclagens de bandas sonoras são sempre arriscadas pois pode dar a sensação de não pertencer aqui.
Temos aqui um belo exemplo de um país adulto - a Alemanha, capaz de transformar um momento crítico da sua História ocorrido há pouco mais de uma década num filme que olha para estes momentos com calma, realismo, e algum sentido de humor. Compare-se com os tristes Portugueses, cujo cinema ainda anda a remoer o desaparecimento de um puto estúpido chamado Sebastião, e que tem uma atroz dificuldade em lidar com os fantasmas mais recentes. Hoje, citando Kennedy, "ich bin ein Berliner" ("sou um donut / bola de Berlim").
Adeus Lenine! é recomendado a todos os que se interessem pela História e que por uma vez queiram ver um bom filme que não seja falado em inglês. No entanto, quem tiver posições políticas fundamentalistas dever-se-à abster.