Anti-ateísmo, o preconceito esquecido
Enquanto os mecanismos da cultura popular têm trabalhado (e bem) para minimizar os fenómenos de preconceito com base no sexo, na raça e na orientação sexual, existe um fenómeno esquecido por este esforço, fortíssimo nos Estados Unidos e felizmente pouco notado na Europa, mas com tendência a aumentar: O anti-ateísmo. Num artigo da revista Wired assinado por Richard Dawkins - talvez o maior explicador da ciência, reputado céptico e autor da teoria dos memes -, este propôe a utilização do termo 'bright' para designar pessoas com uma visão naturalista, não-supersticiosa do Universo. E fala de uma estatística preocupante: mais 90% de Americanos não teriam problemas em votar numa mulher, num judeu ou num cristão das várias confissões existentes, caso fosse esse o candidato escolhido pelo seu partido, mas apenas 59% votariam num ou numa homossexual, e apenas 49% votariam alguém que se assumisse como ateu, isto é, num 'bright'.
Já sabemos que estamos a falar dos Estados Unidos da América, o país criado por ateus com apoio da França (curiosamente agora odeiam-se mutuamente) que algures no decurso da sua História decidiu que afinal era abençoado por Deus e todo o projecto de Franklin, Washington, Jefferson e outros descarrilou. Mas existe de facto todo um sentimento em relação a nós ateus que nos vê como criaturas sem alma, sem qualquer noção da espiritualidade, malévolas por não acreditarmos num Deus - e num Inferno - que nos meta na ordem. Tal é falso.
Como ateu, céptico e adepto da Ciência - 'bright' assumidíssimo -, sei que existe uma diferença entre isto e ser niilista. Tento (pois é uma procura tão árdua como um caminho religioso) compreender o meu lugar insignificante no Universo, compreender a insignificância de toda a Humanidade. E a conclusão é óbvia: temos que tratar de nós mesmos, do nosso mundo e dos outros, porque não há nenhum paizinho amigo num trono celeste para nos salvar se nos metermos em trabalhos! Existem imensos fenómenos que não compreendemos, e é isso que são: fenómenos que não compreendemos, por não termos adquirido certos conhecimentos ainda uns, e talvez por falta de capacidade inata da espécie humana outros. Não somos vazios de espiritualidade - o Deus de um ateu é próprio Universo, o seu esmagador poder e infinidade (será o Deus do Génesis uma metáfora para a Natureza?).
Um ateu acredita numa ética, naquilo que pode fazer sem prejudicar a liberdade dos outros, em vez duma moral cheia de regulamentos contraditórios vinda da superstição de civilizações esquecidas nos confins da nossa História. E vive longe da coacção do Céu e do Inferno (como certas religiões como por exemplo a judaica), que pode ter efeitos perversos - afinal, é o Céu que é prometido aos terroristas suicidas islâmicos...
Fé é efectivamente aquilo que o ateu não tem, talvez exceptuando a fé em si próprio. Um fenómeno estranho a fé, a crença cega: Muitos acham-na ridícula ou perigosa quando a vêm nos outros - a fé dos muçulmanos, a fé que milhões tiveram em Estaline ou em Eva Perón -, mas procuram a fé num Deus que é o Pai Natal num traje real, fazendo de tudo para servir supostos intermediários, detentores de segredos. Veja-se só como a Igreja Católica pretende banir as mulheres dos altares, tomando mais um passo errado enquanto é cada vez mais uma organização machista. E como podemos compreender que as mulheres e todos os restantes católicos com um sentido de justiça não se revoltem? Será que alguém tem a lata de dizer claramente que Deus não quer mulheres no altar - e milhões o desplante de acreditar?
É portanto preocupante ver os sinais de preconceito. Ainda há locais onde a Teoria da Evolução de Darwin - talvez o maior choque de humildade para a raça humana já fornecido pela Ciência - tem o seu ensino proibido, em favor da Teoria Criacionista (o Mundo em sete dias, Adão e Eva no Paraíso até que veio a serpente má), que faz tanto sentido como as absurdas crenças de que a Terra é uma semiesfera assente na carapaça de uma tartaruga gigante, que provoca terramotos quando se mexe. No mundo Ocidental, há quem seja processado e condenado por ter um autocolante com a palavra 'ateu' colado no automóvel. E como a estatística prova, uma grande maioria dos cristãos (que devem ser pessoas bem melhores que os ateus, não haja dúvida) até seriam capazes de votar em pessoas de outras religiões, mas nunca num ateu. A pergunta impõe-se: onde está o mal?