Arquivo Cafeína

A mais alta aposta

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 05.10.2003

Imaginem que estão a jogar damas com um amigo vosso. O estado de concentração é absoluto, pois estão naquela jogada em que ou conseguem romper a defesa ou terão que enfrentar só com peões uma dama em três jogadas no máximo. E é difícil manter a concentração, pois em vosso redor estão bancadas com 50 mil espectadores. Agitam-se bandeiras de um lado e de outro, bandeiras com as vossas caras estampadas. De repente, a jogada! Mas o árbitro assinala um 'obrigado a comer', e em consequência disso o adversário tem o caminho livre para fazer dama. E rebentam os confrontos nas bancadas. Os comentadores televisivos analisam as repetições. A polícia de choque intervém, membros da claque armados com paus e pedras respondem. O jogo prossegue e vocês perdem, e no final, durante a flash-interview o vosso manager põe em causa a imparcialidade do árbitro ao ter assinalado aquele 'obrigado a comer', tendo feito vista grossa a um 'obrigado a comer' anterior que passou despercebido tendo beneficiado o adversário. Ainda bem que todo este relato é surreal.

Porque é que um outro jogo disputado por onze vinte e dois indivíduos num relvado provoca todo este efeito? Porque é que o futebol causa toda esta insanidade? E porque é que eu, sabendo reconhecer a insanidade, participo nela? Porque é que o coração acelera quando o FC Porto ataca, gela quando o Zidante consegue um centésimo de segundo do espaço? E pior, porque é que eu hei-de me sentir miserável e derrotado após o jogo, enquanto aquele Ricardo Fernandes sai de consciência tranquila do seu emprego excepcionalmente bem pago? E que fez realmente o José Mourinho na vida que me leve a respeitá-lo como um mestre Zen? É que sejamos racionais: uma equipa de entertainers desportivos profissionais ganhou a Taça UEFA. Eu, portista, não ganhei absolutamente nada. Então o que é que eu andava a fazer, a berrar e a pular feito estúpido?

O futebol de alto nível tem efectivamente o mérito de ter substituído desportos mais desagradáveis como a guerra no imaginário colectivo dos países desenvolvidos (daí, um dos grandes problemas do mundo reside no facto de os Estados Unidos terem adoptado como 'futebol' um jogo de rugby com armadura, em vez daquilo que o resto do mundo - excepto os Australianos e os seus campos ovais - adoptou como futebol). Mas porque é que ficamos tão contentes? Na guerra existe sempre a ameaça física a nós próprios, o que não existe no futebol, tirando na Colômbia e em Nápoles. E a menos que o espectáculo futebolístico tenha uma boa equipa de entertainers como a do FC Porto, torna-se quase uma tortura assistir a um jogo de futebol, a menos que visto com cinismo - afinal, qual é o interesse de um Beira-Mar vs. Estrela da Amadora? E nem é preciso sair da Primeira Liga!

O que se passa com o futebol é a aposta. Se os 50 mil espectadores do nosso surreal jogo de damas tiverem apostado dinheiro neste jogo, toda a situação se torna mais compreensível - sem querer dizer que seja racional. E no futebol, mesmo quando não se aposta dinheiro, apostamos a nossa honra. Pensando bem, como explicar que sou portista? Existe a pressão do grupo - afinal sempre vivi no Porto -, mas isso por si só não é razão. Simplesmente, desde miúdos, habituamo-nos a apostar a nossa honra num clube, e assim fica. O futebol é um espetáculo vibrante, e é difícil não tomar partido. Mesmo que na televisão esteja a dar um jogo da Liga dos Campeões Africanos entre os Hearts of Oak do Gana e o Zamalek do Egipto acabamos sempre por torcer por uma equipa. Pode ser por causa da camisola (neste particular, não sei como alguém pode torcer pelo Beira-Mar, Estrela da Amadora e Sporting). Pode ser por causa da cara de um jogador (o que normalmente faz com que se torça pelo adversário da primeira equipa a ser brindada por um grande plano). Pode ser por uma boa jogada ou por qualquer razão inexplicável acharmos que preferimos o Gana ao Egipto. Apostamos a nossa honra nessa equipa, e pronto.

Ainda bem que no Ocidente não se pratica harakiri.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012