Porque é que de vez em quando há molho?!
É costume cada vez que se encontram os líderes dos países mais industrializados e desenvolvidos do planeta, o chamado Grupo dos Oito, haver manifestações de repúdio, desordens e protestos na via pública, em suma, molho. As forças da Ordem, normalmente bem representadas pela polícia de choque, também comparecem, fazendo com que as notícias que surgem nos órgãos de informação de todo o mundo sejam sobretudo de confrontos e raramente se perceba porque é que uns protestam e outros se juntam. Mas afinal o que é que estes senhores do G 8 pretendem? Qual a sua motivação? Porque levam a tanta ira e antipatia nas ruas das cidades onde se encontram?
O G 8 é constituído pelos países mais ricos: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Japão e a que juntam a Rússia. É o clube dos ricos. Estas nações têm mais riqueza que o produto interno bruto dos 49 países mais pobres do Mundo, que juntos têm 650 milhões de pessoas. Têm 10% da população e uns 60% da riqueza mundial!
Destes países, quatro têm direito a VETO no Conselho de Segurança das Nações Unidas. São os donos maioritários do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Têm o maior poder militar e sofisticado, incluindo o nuclear.
O que eles pretendem demonstrar com as cimeiras é solidariedade, coesão e confiança no que diz respeito à actividade económica, ao emprego e ao progresso social.
Comprometem-se a tornar o mercado comercial responsável, e com uma responsabilidade social e ambiental. O diálogo com a África é prioritário para que os países em desenvolvimento possuam os meios que facilitem esse desenvolvimento. Querem também assumir um forte compromisso sobre a água, um recurso que tende a diminuir e perder qualidade, de modo que o número de habitantes do planeta, que não têm acesso hoje à água e ao saneamento, diminua em metade. No que respeita à área da saúde, comprometem-se a um progresso no acesso aos medicamentos por parte dos países pobres. Prometem mobilizar financiamentos importantes para a luta conta a fome. Quanto ao meio ambiente, lutarão contra as alterações climáticas. Propõem-se lutar contra o terrorismo através de todos os meios à sua disposição.
Mas... então porque é que tão boas intenções geram tanta revolta?
Se, por um lado argumentam com a informalidade das discussões não pretendendo retirar poder às instituições que tratam dos temas ali tratados, a verdade é que já possuem uma burocracia própria de uma instituição mundial permanente, que junta em reuniões, ministros e homens do aparelho com influência nas outras instituições. Ou seja, já se constituem num protótipo de governo mundial.
Sendo estes países os donos maioritários do FMI, porque dizem que querem acabar com a fome no mundo e apoiar o desenvolvimento dos países pobres?
É cinismo puro e duro! Nós sabemos que à mercê do FMI, os países pobres são obrigados a aplicar uma receita única, a dos Planos de Ajustamento Estrutural: privatizações, abertura dos mercados ao capital estrangeiro e disciplina orçamental com redução da despesa pública; estes três mandamentos são essenciais para o acesso ao crédito internacional, que servem no fundo para pagar os juros de créditos anteriores, numa espiral sem fim: entre 1980 e 1999, o terceiro mundo já pagou seis vezes o que devia em 1980. E continua a pagar estando cada vez mais endividado. Esta globalização pretendida, implica a concentração da propriedade de todos os meios e bens económicos na posse de uma elite assim como o controlo de todas as fontes e processos de produção e distribuição de riqueza.
Numa rápida fotografia deste fenómeno que tem levado à concentração da riqueza, podemos verificar que 1,2 biliões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza (com menos de um euro por dia) e 2,8 biliões - ou seja, quase metade da população mundial - vive com menos de 2 euros por dia. 70% daqueles pobres absolutos são mulheres e que, no extremo oposto, os três maiores bilionários do planeta conservam o equivalente à riqueza dos 48 países mais pobres
(fonte do Banco Mundial).
Voltamos a questionar: quem é que elegeu estes senhores para governar o mundo? Conscientes da gradual "falta de imagem", têm procurado revestir-se de uma capa democrática, organizando um G-15 aqui e um G-25 acolá, com convites a algumas nações da segunda ou terceira linha da globalização neo-liberal para envolvê-los a eles também na retórica da solidariedade, da luta contra a fome, do acesso à água e por aí adiante. Em resumo, trata-se de pura hipocrisia política: os países ricos criaram-lhes o problema, e têm agora a generosidade de os envolver num debate sobre uma eventual solução
Ou seja, parece-me que a única reivindicação possível seja a imediata dissolução deste Grupo, que ainda por cima não admite partilhar a mesma localidade com quem deles discorda - os movimentos que denunciam a ilegitimidade do G-8. Acreditem que quando isso acontecer, ninguém vai ter saudades dele. A começar pela população de Evian, cidade francesa onde se realizou a última cimeira, que foi obrigada a deslocar-se em massa aos serviços municipais para levantar livres-trânsito. Estes tinham que ser apresentados nos controles montados em cada esquina. Com mais de vinte mil militares e gendarmes mobilizados para tratar da "segurança" de oito presidentes e respectivos ajudantes, a cidade da água mineral assistiu a um gigantesco engarrafamento
policial.
As culturas, as diferenças, os direitos, no fundo... a riqueza na diversidade que a Humanidade ainda detém, tenderão a ser esmagadas sob pretexto de uma globalização de melhorias, falsa, e que serve apenas o interesse de alguns. Afinal de contas... a poluição aumenta, a fome também, o buraco no ozono também, a revolta que leva a actos de terrorismo igualmente, a desigualdade entre mundos idem, a descriminação social também, os recursos vão desaparecendo, a floresta tropical também, as espécies animais extinguem-se, ... ... ...