Mata o Bill!
Quando há 11 anos Quentin Tarantino fez 'Cães Danados', houve quem o considerasse o realizador mais violento do mundo. Que dizer então da primeira parte (a continuação da história estará nas salas daqui a uns meses) deste épico 'Kill Bill'? Trata-se talvez do filme da história do cinema que mais recorre à violência gratuita. Peguem-se em todos os Rambos, Shawarzeneggers, Bruce Lees, filmes de ninjas, mangas de samurais, ficção científica javarda e nas lutas ultra-exageradas entre Neo e o Agente Smith. Nada chega aos calcanhares da cena em que Uma Thurman desfaz centenas de yakuzas com uma espada tornando a célebre cena de 'Matrix Reloaded' numa coisinha vulgar e branda, digna das tardes da TVI. Contudo, 'Kill Bill' é um filme brilhante.
É o grandioso tributo à era do VHS, no tempo em que Quentin Tarantino alegadamente trabalhava num vídeoclube onde alugava coisas como os filmes do Bruce Lee, 'Commando' ou os filmes da série 'American Ninja'. O vilão supremo - o Big Boss, como se de um jogo de Spectrum estilo Target Renegade se tratasse, é David Carradine da série 'Kung Fu'. Já há 10 anos os grandes estúdios tentaram fazer um tributo semelhante 'a quente' que saiu algo pálido - 'O Último Grande Herói' - mas 'Kill Bill' passa todas as marcas.
Todo o filme é construido com base em tecnologia de há 20 anos. Não há efeitos por computador. Tudo é mecânico. As lutas são coreografadas com elásticos, os manequins esguicham litros e litros de tinta vermelha quando são decepados (não há cá poliuretano expandido e outros plásticos de alta tecnologia), o avião é uma maquete. Tarantino mostra mais uma vez ser o maior manipulador de clichés. Oferece cenas previsíveis de bandeja para nos enganar no último segundo, atira descaradamente com lugares-comuns quando não os esperamos. Certos diálogos são intencionalmente terríveis mas acompanhados por pormenores deliciosos. E faz uma arte da ultraviolência explícita xungosa. Nunca foram gastos tantos litros de tinta vermelha num só filme.
Divertidíssimo. Cinco estrelas.