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Os americanos são maus...

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 07.12.2003

A crítica de arte é certamente dos terrenos mais complicados onde eu me posso meter, mas não consigo deixar de escrever sobre a exposição 'Um+Dois+Mil' do brasileiro Nelson Leirner, patente na Culturgest-Porto. Isto porque esta exposição chocou-me. Chocou-me por ser tão má. Chocou-me por ser tão básica. E chocou-me por ser baseada em generalizações abjectas e por revelar aquela profunda dor de cotovelo nacionalista a que muita da arte dos Estados Unidos do Brasil já me habitou. Resume-se num "Os americanos são maus" grosseiro, infantil, e indigno de um visitante com um mínimo de bom senso. Foi certamente das piores exposições que vi na vida. Mas vamos analisar os problemas:

Não, o Cafeína não virou à direita nem se tornou apoiante da política americana. Mas vejamos por exemplo as obras que consistem em globos e mapas preenchidos com recortes. No plano material (vermelho) surge-nos a América do Norte preenchida com Ratos Mickey, a América do Sul com esqueletos, no plano espiritual (amarelo) o inverso. Num mapa-mundo, temos a América do Norte e a Europa pintadas a Disney, e o resto do mundo com esqueletos mais ou menos sorridentes com excepção de África, preenchida por caveiras. Vários globos mostram a América sorridente e o resto do mundo a morrer. Estamos perante obras de propaganda que devem invejar com a feita na Coreia do Norte.

É evidente que a América do Norte e a Europa vivem acima das suas possibilidades e o resto do mundo é que sofre as consequências. Há a famosa estatística de que os habitantes destas áreas vivem em média três vezes acima da fatia de recursos naturais que a Terra lhes pode disponibilizar. Mas identificar opressores num mapa é o maior exercício de generalização grosseira em que se pode cair. É um apelo deliberado ao preconceito digno de terroristas islâmicos. Simplesmente coloca um espaço geográfico e todos os seus habitantes como maus e exploradores, sem olhar a comportamentos, sem olhar à identificação das oligarquias, e traindo aqueles - que são um grande número - que também são oprimidos nos Estados Unidos e na Europa, e aqueles que nestes locais alertam e lutam por alguma mudança.

Pior é o carrinho de compras cheio de latas de refrigerante esculpidas em aviõezinhos militares por cima de uma bandeira do Brasil apresentada como tapete esfarrapado, ou o mapa do Brasil cercado por caravelas esculpidas a partir de latas de 'água suja do capitalismo'. É uma evidência a colonização comercial exercida pelos EUA e por países europeus, mas o recurso a símbolos nacionais leva tudo isto para um patamar de vitimização nacional brasileira que trasanda a inveja. Afinal, estamos perante um país que tentou imitar os EUA em inúmeros aspectos e falhou grande parte dos seus objectivos. E com o recurso a estes símbolos - passaria pela cabeça de algum artista português esculpir o contorno de Portugal com latas de Coca-Cola? - nada mais temos que um anti-americanismo que não só é básico, mas pelos vistos é também invejoso. Pior, só mesmo o que vemos em artistas franceses inconformados por Paris já não ser capital de coisa alguma.

Em exposição estavam também toda uma série de múltiplos. O guia sorridente e prestável falou logo de clonagem e de como isto é mais uma conveniência americana. Aí, passei-me. Mais básico e redutor não se pode ser. Será que a Inquisição também era americana? E os Hunos? E o Hitler? A um artista que não hesitou em criticar o futebol e a religião não fica nada bem ser tão dogmático e simplista. Depois, temos toda uma série de críticas ao mercado da arte, que nunca ficam muito bem em quem - certamente não se opôs - expõe num opulento salão que é propriedade de um Banco. Ou seja, uma coisa é dizer, outra é praticar o que se diz.

Um comentário final. Este é certamente dos melhores exemplos possíveis do modo como o nosso sistema social integra mesmo quem à partida se lhe opõe. Críticas acertadas e certeiras que identificam os comportamentos humanos que em todos os países do mundo (sendo que nos Estados Unidos realmente existem grandes executantes) oprimem os próximos e aniquilam a igualdade oportunidades, críticas que põem a corrupção a nu, estas nunca são bem-vindas. Mas tamanha caricatura como este conjunto de obras deste Nelson Leirner acabam por ser completamente inócuas e convenientes para os poderes, que assim integram e aglomeram toda uma série de elementos da oposição no seu próprio lado.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012