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O século da eficiência - ou do fim

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 23.01.2004

Não sendo eu comunista, sempre existiu uma pequena falha na minha argumentação pessoal para a negação do comunismo. E se o governo da RDA tivesse no fundo razão? E se tudo o que a Terra permite ao cidadão comum sem entrar em desiquilíbrio é um mísero Trabant após anos de trabalho duro? E se todos nós no Ocidente vivemos uma ilusão que nos arrasta para a catástrofe? Ora, já há muito que se fala no inevitável esgotamento dos combustíveis fósseis. Mas será que avaliamos correctamente as consequências e as acções a tomar? Existe quem trace cenários apocalípticos para um futuro próximo, quando a oferta do petróleo começar a diminuir irremediavelmente. Dizem que já vivemos os primeiros sintomas, e alertam para uma Grandessísima Depressão, fome, fascismo e guerra generalizados. Este é o pior entre os piores cenários possíveis. Eu sou mais optimista. Mas o século XXI será o século da eficiência. É uma aposta em que a Humanidade ou ganha ou perde tudo.

O petróleo vai acabar. Não é uma hipótese, é uma certeza. Quando, será sempre cedo demais. Existe uma tendência universal para a Humanidade - sejam os indivíduos, sejam os grupos (governos e empresas) - reagir às crises em vez de as tentar prevenir. E o petróleo e o gás natural não só têm a óbvia implicação no transporte, como são o elemento gerador de 40% da energia electrica mundial. Será necessário reconverter os meios de transporte. O carro a gasolina terá que dar lugar ao carro com motor electrico (com muito menos autonomia), o camião de mercadorias, impraticável com motor electrico (pelo menos tendo em conta os melhores existentes actualmente), terá que dar lugar ao comboio (o que é que a CP foi fazer?...). Isto implica uma necessidade de densificar as cidades. Automóveis com pouca autonomia e pontos fixos de descarga de mercadorias implicam um custo insustentável para as nossas cidades pouco densas e pouco eficientes.

Será também necessário, como é óbvio, aumentar a produção de energia electrica de modo a cobrir isto tudo - os 40% do petróleo mais as necessidades do transporte. Aqui o autor do pior cenário possível - felizmente para nós - terá sido demasiado precipitado a eliminar quaisquer hipóteses. Já está em construção o primeiro reactor de fusão nuclear (método oposto à perigosa fissão usado nos reactores actuais), o Santo Graal da energia - é melhor cruzarmos os dedos. Mas mesmo sem fusão, a energia electrica poderá ser retirada das ondas, de chaminés eólicas ou de células fotovoltaicas muitíssimo mais baratas que as actuais.

O problema agrícola pode também ser minimizado com a introdução - inevitável diga-se - da manipulação genética. É um sapo a ser comido. Mais útil que protestar contra a manipulação será a exigência de controle público sobre a manipulação genética, para evitar cenários em que uma empresa possa ter poderes de vida e de morte através de mecanismos como as patentes. Existirá também a hipótese de se avançar para uma reciclagem a sério de matéria orgânica para ser utilizada como adubo, e de implementar técnicas de agricultura ultra-densa e eficiente - sei de experiências onde o trigo era cultivado em prateleiras em estufas sob luz de uma determinada cor, que além de poupar energia electrica levava as espigas a crescer mais.

Claro que para tudo isto funcionar - e nos safar, diga-se - será sempre necessário conservar energia. Compare-se a dispendiosa lâmpada de tungsténio com a lâmpada fluorescente. Veja-se como qualquer automóvel chega aos 180km/h quando o limite de velocidade é de 120km/h. Vejam-se as casas criminosamente mal isoladas, que levam a que em Portugal se gaste mais energia em aquecimento que na rigorosa Noruega.

Existe portanto muitíssimo a fazer. Li há algum tempo que se toda a população mundial tivesse o nível de vida da Europa e dos Estados Unidos seriam necessárias três Terras para existirem recursos suficientes - e não é necessário dizer que na actualidade, com tendência para aumentar à medida que certos recursos se esgotam. Assim, apesar de por razões erradas e opressoras, aquilo do Trabant não era tão má ideia. Afinal, que significa 'crescimento'? Aceleração rumo a uma parede de cimento?

Deixem o crescimento para as idas a Marte, que deverão ser feitas muito mais tarde. De momento, é a Terra que necessita de arranjo. A nova palavra de ordem deverá ser 'constância', com uma total e inequívoca recessão dos recursos gastos para fins idênticos. Crescimento, só da eficiência. O século XXI tem que ser o século da eficiência. Tem mesmo que ser.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2013