Arquivo Cafeína

Um estádio cheio de coisas improváveis

Eduardo Morais 'NiceGuyEddie' — 08.02.2004

Pensem em coisas extremamente improváveis de acontecer. Digamos, algo com uma probabilidade de um em um milhão de acontecer na próxima hora. Tipo encontrar uma nota de 200€ na rua, ou de levar com um vaso na cabeça. Ora, então isto quer dizer que na próxima hora haverão dez felizes contemplados em Portugal, e 6000 felizes contemplados no mundo. Durante as próximas 24 horas, existirão 144000 contemplados no mundo - isto é, os Estádios da Luz, Alvalade e Dragão cheios de gente a quem aconteceu a mesma coisinha específica cuja probabilidade era de um num milhão. Pensando bem, a hipótese de encontrar 200€ na rua talvez seja de um em um bilião. E espero bem que a de levar com objectos em queda também ande por esses lados.

É um exercício interessante pensar um pouco nas probabilidades. Tanto milagre desmistificado. Mas dá para ver que a esmagadora maioria das pessoas não pensa. Em vez disso acreditam na Sorte, uma misteriosa aura verde presente em certos sítios, em que ao que parece foi usado o spray de Piço que dizem estar à venda no Mundo Místico. Senão como podemos compreender os cafés e agências da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que colocam cartazes fazendo alarido dos bilhetes da lotaria premiados que aí venderam? Alguém que compreenda que a probabilidade de algo acontecer duas vezes seguidas no mesmo sítio é menor apenas pode fazer um entendimento desta publicidade: fugir a sete pés.

No livro Feiticeiros e Cientistas o autor Henri Broch (que ainda tenta compreender a probabilidade de ter sido baptizado assim) refere um exemplo curioso: num qualquer 'talk-show' fatela em França, um homem apresentando-se como médium anunciou de forma solene, com uns 'abracadabras' pelo meio, que iria estoirar com as lâmpadas da sala de toda uma série de teleespectadores. Dali a momentos, começaram a chover os telefonemas, espectadores emocionados que testemunhavam o milagre e os poderes do médium. Henri Brosch demontra então através de simples matemática que, tendo em conta o tempo de vida de uma lâmpada e a audiência média do programa (em França), várias centenas de pessoas terão sido felizes contempladas com esse milagre. E entre centenas de espectadores de telelixo há sempre meia-dúzia disposta a telefonar (ou a enviar um SMS para o rodapé) e a dar o seu testemunho emocionado.

Vejam-se os milagres das aparições de Cristo em manchas de humidade na parede. Quantos milhões de manchas de humidade existem nessas paredes pelo mundo fora? Durante a última semana, vi em diversas manchas de humidade o gato Sylvester, a mama da Janet Jackson e o Liedson a representar Hamlet (com o Beto Acosta no papel do fantasma). Mas basta que alguém com a inclinação certa imagine a Virgem Maria e está o caldo entornado! Os crentes acorrem ao local, e esperando ver uma aparição, vêm-na realmente, quando a Gestalt suprime a impressão inicial dos poucos desconfiados de que a mancha tinha bigode.

Curiosamente existe um local onde o entendimento das probabilidades é lúcido: é do senso comum nos casinos esperar pelas máquinas que não dão prémios há mais tempo. Mas é precisamente nos casinos que as regras das probabilidades não se aplicam, devido à acção de misteriosas forças físicas. Andamos todos trocados.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012