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Do amor à amizade

Anónimo — 06.08.2004

Não sei quando foi inventado o "Dia da Amizade", mas na semana passada, ou foi na anterior?, um amigo me surpreendeu ligando para me perguntar brincando se eu nao ia lhe dar um presente. Só faltava essa. Depois de transformar em efeméride mãe, pai, criança, sogra, secretária, mestre, árvore, o consumo tinha inventado mais essa fonte de ganhar dinheiro, com o agravante de que, no caso, os amigos custam mais caro, pois são mais numerosos do que pai, mãe, sogra etc. Dificilmente se tem um amigo apenas. Conversamos sobre isso e descobrimos que essa, se pegar, seria a única desvantagem de se celebrar esse sentimento que, ao que tudo indica, fortaleceu-se nesses tempos tão pouco virtuosos de sida e de crise, já que não existe atracção física e não apresenta efeitos colaterais como tormentos de ciúme e fantasias. Mesmo nas rupturas, a dor é menor. A ingratidão de um amigo, ou a traição, às vezes é insuportável, mas nada se compara a uma dor de corno. Um amigo consola a perda de outro, mas perder um amor é um luto sem consolo, pelo menos por muito tempo.

Por mais paciente e tolerante, a amizade pode ser adoptada inclusive entre homens e mulheres, e é um sentimento mais seguro e duradouro do que o amor, posto que é uma espécie de amor sem cláusula de exclusividade e sem a ditadura da libido. Aliás, não há nada mais precário do que o amor sem amizade.
Só fui casado uma vez (pelo menos por enquanto) e, portanto, não falo por experiência própria, mas amigos e amigas me dizem que conservar a amizade depois da separaçao é uma das maiores dificuldades que os casais enfrentam. Acho que é verdade. Tanto que quando encontro um marido ou uma esposa sozinhos jamais pergunto "como vai fulano (ou fulana)?". Aprendi isso depois de passar por várias situações desagradáveis em que tive que ouvir sem jeito: "Aquele (ou aquela) filho da p...? Não quero nem saber". O que entristece não é o fim do caso, mas o facto de não terem aproveitado o tempo de convívio para construir uma amizade que sobrevivesse ao amor, que, como ensina Fernando Sabino, corrigindo Vinicius de Moraes, "Só é eterno enquanto dura".

Tenho uns três amigos(as) passando por isso no momento. Encontrei-me com uma delas no domingo e, sem que eu perguntasse, claro, porque, como disse, não pergunto mais, me contou como ia andando o seu processo de separação, que já durava três meses. "Está tudo indo muito bem, as crianças se conformaram, ele passa em casa para pegá-los nos fins de semana e tem sido um amor, você não imagina". Aí cai na besteira de fazer a pergunta-chave: " E ele já sabe que você tem outro?" Resposta: "Ainda não".

Mudei de assunto correndo. Não queria passar mais uma vez por desmancha-prazer, como me senti em relação a outro amigo vivendo a mesma experiência. O casal se separou há tempos e continua mantendo uma invejável relação de amizade. Viraram dois grandes amigos: se encontram, se frequentam, vão às mesmas festas, são solidários um com o outro, uma coisa, só vendo. Mas tem um detalhe: ainda não surgiu uma terceira pessoa, um "alguém". Como são jovens, bonitos, interessantes, é claro que vai surgir, e ai será o grande teste. Quando fiz esse comentário de mau gosto, uma outra amiga me chamou a atenção: "Pára com isso, parece até que você está torcendo!".
Ela tem razão, é possivel e há inumeros casos de separação pacífica e harmoniosa que deram certo, que transformaram o amor em amizade. Talvez o segredo seja o mais simples mesmo: quanto mais rica e generosa a relação, mais fácil é fazer o amor virar amizade, com ou sem alguém.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012