Arquivo Cafeína

Requiem for a Dream

'Leoglima' — 14.09.2004

Você tem controle sobre sua vida? A gênese do vício desfila aos nossos olhos. O enfoque apaixonado do diretor pelos seus personagens e o amor que vemos que nutrem uns pelos outros, nos impedem de fazer julgamentos, nos permitem mergulhar nessa profunda investigação da dor, da vulnerabilidade e da busca pelo prazer.

O que faz de um vício pior do que o outro? O seu grau de destruição? Uns tomam café, outros cheiram cocaína, alguns atacam a geladeira. Muitos passam a tarde em frente à TV, outros dentro do cinema, outros dentro de algum templo religioso. Muitos lêem livros de auto-ajuda... Mas todos, esses indivíduos têm em comum a vulnerabilidade.

Os anos passam correndo e a temática das drogas no cinema continua sendo uma constante. Por vezes, preferiu-se usar a linguagem da imagem para uma função social a fim de desenvolver um retrato moderno do mundo das drogas e daqueles que usufruem delas. Essa prática vem mostrando competência, produzindo películas, de certa forma documentais, ora com mensagem positivista, ora com uma abordagem chocante, sem intenções de desenvolver uma solução para o problema, mas apenas de apresentá-lo à sociedade de forma objetiva. É nesse contexto que se encontra “Réquiem para um sonho” (Requiem for a Dream) – segundo longa do pouco conhecido Darren Aronofsky – um filme que traz à tona a influência das drogas e da mídia na vida e nos sonhos das pessoas, mostrando, de forma interessantíssima, como estes dois fatores sociais se encontram cada vez mais intimamente relacionados.
“Réquiem” tem como fio condutor a trajetória de Harry (Jared Leto), um jovem viciado em drogas que junto com sua namorada Marion (Jennifer Connelly) e seu amigo Tyrone (Marlon Wayans) sonha ficar rico e realizar seus grandes sonhos – montar uma loja para Marion e ter um belo carro – montando um perigoso tráfico de drogas. Harry mora com a mãe - Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) - uma senhora simpática e conformada com a vida que tem na televisão um único vício como prazerosa companhia. Quando Sara recebe um convite para participar de seu programa de TV preferido, dedica todo o seu tempo e todas as suas energias para emagrecer e entrar novamente no vestido vermelho de sua juventude. Sem obter sucesso, ela recorre a uma ajuda médica, quando passa a ingerir anfetaminas – o que acaba, obviamente, deixando-a num estado de saúde deplorável. A partir desse momento, Darren Aronofsky nos coloca frente a uma situação de completa auto-destruição dos personagens, que se envolvem num labirinto de desejos, esperanças e ilusões.
“Réquiem para um sonho” está à frente de uma série de filmes com a mesma abordagem por uma série de bons motivos. Possui uma natureza brilhantemente documental e sua verossimilhança é reconhecida cena por cena. Enquanto outros filmes se constituem de cenas que chocam apenas por chocar (como “Kids”, por exemplo), o filme de Aronofsky conduz uma história linear que vai crescendo e invadindo o espectador na medida em que este já se encontra embriagado pelo filme. E, enquanto outros filmes sugerem que o viciado em drogas, mesmo se vendo num processo de auto-destruição, pode conciliar o seu vício e sua sobrevivência, “Réquiem” acredita numa realidade mais pessimista, onde as drogas montam um caminho de completa depreciação física, mental e moral. Todos os quatro personagens são levados a uma verdadeira viagem ao inferno, movidos por muitas drogas, sexo e ilusões.
Outra abordagem interessante do filme é a influência da mídia no comportamento das pessoas e como esta pode ser uma droga tão maléfica como as drogas químicas. Os vícios de Harry e de sua mãe são mostrados paralela e gradualmente, culminando num mesmo estado de miséria e esfacelamento. O papel da mídia aparece como coadjuvante na história e até mesmo como uma metáfora para as muitas possibilidades que as pessoas têm de se tornar viciadas em qualquer tipo de droga – o que não quer dizer que terão finais diferentes na vida. Esse é um ponto fortíssimo no roteiro de “Réquiem para um sonho” que sai da mesmice e do clichê de colocar a mídia como vítima natural e eterna, sem nenhuma justificativa plausível.
Esse poderia ser um dramalhão sobre viciados tentando sair do 'fundo do poço', grupos de anônimos servindo de apoio mútuo, mas não. O diretor abraçou os personagens e suas sensações. E querendo livrar de culpa ou rótulos, fez quatro pessoas iludidas em sua inocente futilidade. Os recursos são vários, ele usa muito a lente grande-angular, de forma opressora. A fraca pessoa e seu mundo distorcido pelo efeito químico.
Experimentamos sortimento de sensações quando a tela é partida ao meio em montagens paralelas. É lindo! Aterrorizante, quando as pessoas do lado de lá do vídeo saem para o mundo de Sara, numa versão "Rosa Púrpura do Cairo" macabra.
A rápida montagem nos rituais de uso das drogas, faz de todas equivalentes. O auge da confusão e do mundo virado de cabeça-para-baixo são expressos pela câmera fixa à altura do pescoço dos atores, mostrando o que está acima deles totalmente desordenado. Lamento de violino cortante. Falta de chão.
Ellen Burstyn concorreu ao Oscar por este papel, ela é magnífica. Todos os atores estão em atuações brilhantes. Não é muito dizer que são as melhores de suas carreiras. Jennyfer Connely, como Marion , quem diria, a menininha de "Labirinto" envolta em sombras e disfarces, olhar vago e triste, pronta para cumprir um papel que nunca quis para si. Imagens fortíssimas e em close. E Marlon Wayans (Tyrone), que só havia feito comédias teen, literalmente buscando o colo da mãe. Apesar de ser classificado como drama (o que não deixa de ser também), acho que dá uma sensação de terror, mesmo sem suspenses e elementos que normalmente povoam os filmes desse gênero — como seres assustadores ou monstros e assassinos. O filme retrata mais de um problema da nossa louca sociedade. Acho que não tem classificação de gênero, se tiver é só um... Arte.

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012