Arquivo Cafeína

Uma fábula moderna para adormecer

'Indiefilmes' — 13.11.2004

Há muitos muitos anos vivia na antiga Porcalhota, agora Reboleira, uma rapariga chamada Salomé Sim Sim. Salomé era muito bem disposta, extrovertida e amiga do seu amigo. Trabalhava na repartição de finanças ajudando os contribuintes a regularizar as divídas.
Certo dia (porque é obrigatório nos "Era uma vez...") chegou ao seu balcão um rapaz de olhos cor de amendoa, de voz suave.
Os olhos cruzaram-se e Salomé sentiu um fogo dentro de si. Foi tão forte a sensação, que fez um esgar esquisito.

Entretanto tocou o telefone...
- Estou? - disse Salomé
- Sim?
- Sou eu!
- Como?
- Sim Sim! Sou eu!
- Ahn? Deixe estar...deve ser engano.

Pedindo desculpa, Salomé voltou-se novamente para o rapaz.
- Posso ajudá-lo?
- Sim!
- Sou eu!
- Como?
- Deixe estar, é melhor calar-me!
- Bom...precisava de pagar esta dívida que está em atraso.
- Ah! Então preciso dos seus elementos!
- Ok!
- Então...nome...estado civil...profissão...
- David Ferreira, divorciado, arquitecto
- Ex-mulher? Filhos?
- Como?
- Estava a brincar!
- Ah! Gosta de brincar!
- "Gostas pouco gostas" - diz Salomé baixinho
- Como?
- Nadaaaaaa
- Uhnnnnn

O fogo dentro de si aumentava, enquanto ir corando mais um bocado. Nas orelhas, no pescoço, quase chegando aos ombros. Suava um pouco enquanto desabotoava os primeiros botões da blusa.

- E a senhora?
- Eu o quê?
- Nome, idade não se pergunta... estado civil?
- Salomé Sim Sim, solteira e boa rapariga.
- E muito bonita!

Salomé corou novamente.

- Quer ir beber um copo logo?
- Porque não?
- Então ajude-me com isto, senão não tenho dinheiro para os copos.

E assim foi...David e Salomé preencheram o formulário C234/02, seguido do P92 e do A49 em duplicado, trocando olhares cada vez mais carregados de paixão sôfrega.

Às 23.30 encontraram-se à porta da Kapital. Enquanto o segurança não os deixava entrar e eles pedinchavam muito, David ia olhando Salomé de alto a baixo, pensando que a sua mini-saia, revelava muito, revelava...
Não estava mais ninguém à porta, mas o facto de Salomé usar apenas um cinto, desculpem! uma mini-mini-saia e botas de tacão e David estar completamente vestido num couro branco justo, não abonava à sua entrada. Depois de pagarem 25 contos em euros, lá entraram.
Salomé olhava-lhe para o rabo e para as mãos disfarçadamente, pensando que David era muito maneirinho.
Às 23.50 já dançavam na pista sozinhos. Já não se distinguia o que era um ou outro. Estão a imaginar.
Salomé continuava com um fogo dentro dela.
- Será que me está para a aparecer o período? Tou tão mal disposta...
- Que é que disseste? Fala mais alto!
- Nada, nada! Sinto um fogo dentro de mim!
- É paixão filha!
- Pois, se calhar - disse corando!

De repente, sente uma impressão que lhe sobe pelo estômago, pela garganta até à boca..E arrota de uma forma absolutamente horrível. Um arroto enormeeeeee! Seguido de outro!

No intervalo dos arrotos, pergunta a David (que tenta fugir dos braços dela), que dia é.
- Sexta feira dia 13 filha e é mesmo um pesadelo!
- Ohhhhhhh. BLURPPPPP Nãoooooooooooo! BLURP Não pode ser 6ª BLURP feira treze de 2004!
- Então porquê? Ai que horror, fecha a boca!
- Porque BLURP no leito de morte BLURP da minha avó, ela BLURP disse-me BLURP que eu nunca poderia saír à rua BLURP, uma maldição, às BLURP 6as BLURP dia 13 BLURP de 2004. Se passasse a BLURP meia-noite BLURP eu me transformaria num taxista BLURP brasileiro! - disse Salomé - enquanto lhe ia crescendo o bigode e arrotava.
David por seu lado, corria cada vez mais depressa.
- Volta aqui, meu amorrrr - disse Salomé - não mi deixa aqui sozinha.
David corria à frente dela, conseguindo esconder-se atrás dos carros...

A última vez que a...melhor, o viu, já do outro lado da rua, Salomé cuspia para o chão, tentando engatar uma prostituta nas escadinhas, junto ao carrinho dos cachorros-quentes...

Durmam bem pequeninos!

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2013