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Celourico de Basto - 3 horas da tarde

'Baz' — 28.11.2004

Celourico de Basto. 3 horas da tarde. Pedi um café com cheirinho. O pacóvio do balcão olhou-me com desdém, mas eu nem dei por isso. Entretinha-me a fitar a labrega da cozinha. Decerto até era a filha do pacóvio. Era robusta, bem torneada, cabelo preso, despachada a lavar os tachos do almoço - de vez em quando, olhava-me e eu sustinha a respiração. Tinha sardas por toda a cara e os olhos de chica esperta. É pena que, se num espaço de um ano não se pusesse na alheta, ia acabar casada com um parolo das redondezas - Que imagem triste esta que se me passou pela cabeça; ver esta ninfeta campestre montada numa Casal duas, ou numa Sis Sach - mais o pascácio que a andaria a comer.

- Vai querer mais alguma coisa da cozinha?
- Não, muito obrigado.
O raio do homem não é parvo nenhum e é o pai - sem dúvida.
Enquanto mexia o café, conclui que não era uma imagem tão deploravem assim, caso o pascácio da mota fosse eu. De certeza que deve saber matar um porco e fazer enchidos. Deve fazer uma açorda de bacalhau que deve ser um pitéu. Ela a meter a carne por um fúnil e a aperta-la bem dentro da tripa, para que fique um bom de um chouriço.
Tenho mais duas horas de estrada a correr bem, mas o que eu dava para levar esta mulher.
Vou olhar-te só mais este cigarro e depois vou-me. Vou «vender juras falsas, amarguras, ilusões/ trapos e cacos e contradições» - Não. vou só vender solas de sapatos.
E tu vais acabar de lavar os teus pratos. Depois vais falar com as tuas amigas até um pouco antes de preparares o jantar. E se calhar vais comentar às tuas amiguinhas, como tu da lavoura, do «man» que foi lá almoçar, que não te tirava os olhos de cima, que o teu pai já estava a ficar fulo com a brincadeira, que até querias falar com ele, se não fossem as panelas para lavar, que já estás farta desta vidinha e que um dia fojes com um João da mota para a Suiça. E elas vão dizer: tu és louca, não faças isso, o teu pai mata-te, a tua mãe isto e aquilo, à tua avó dá-lhe o treco e béu, béu, béu béu, béu, béu.

Se ela ao menos viesse levantar a mesa eu podia-lhe dizer qualquer coisa, dar-lhe o meu numero de telefone, perguntar-lhe para onde se vai para um lado qualquer, ou apenas dizer-lhe que é muito bonita - todas elas gostam de ouvir coisas assim. Eu se fosse mulher gostava.
Mas não. Guardei o tabaco e o esqueiro e fui-me embora.
Dentro do carro, esperei mais um cigarro que ela viesse à porta. Este tasco podia agora pegar fogo, que eu ia lá ajudar de bom grado.
Vou ligar ao meu cliente e dizer que vou chegar um pouco atrasado, que apanhei transito, que tive um furo - não lhe vou dizer que mudava toda a minha vida por uma labrega do almoço.
A porta abriu-se. É ela. Obrigado Senhor!
- Esqueceu-se do seu telemovel.
Porra, a janela não abre. Tenho que sair - o que é que lhe vou dizer, o que é que lhe vou dizer, o que é que lhe vou dizer
- obrigado.
Desculpai-me Senhor, prometo que não volta a acontecer. Decerto que Terá mais que fazer do que cuidar das minhas crises amorosoas. Decerto haverá neste mundo gente mais aflita - nas mãos dos terroristas, à espera do avião da Unicef com mandioca, debaixo dos escombros no Japão ou um gatinho de uma velhinha que subiu a um telhado; e eu a fazer o Senhor perder tempo comigo. Desculpai-me Senhor...
Mas foi o jeito que ela me olhou - «esqueceu-se do seu telemovel» e depois sorriu de uma maneira que o único labrego, parolo, pascácio, pacóvio, trolha, camelo, jerico, urso, palhaço, cabrão desta terra sou eu.

Que mulher. Ela de manhã cedo a ir comprar legumes e frutas para o almoço. Eu a ir rachar lenha ao monte para o forno. Ela a chegar com grande molho de Girassois, eu a pô-los numa jarra no centro da mesa. Ela a começar a amanhar o peixe, eu a chegar por detrás dela e apertar aquele violão contra mim. Ela a dizer: para queto, eu a aperta-la com mais força. Ela a soltar um risinho - Pára...- e a querer mais. Ela a chamar a criançada para o pequeno almoço. Eu a ler-lhe um poema erótico du Bocage - ao ouvido. Mais um risinho. Ela a sentar-se no meu colo enquanto o peixe assa nas brasas. Eu a acariciar-lhe as coxas, grossas. Os putos aos berros nas traseiras, em cima do tractor. O telefone a tocar - deixa tocar. Eu a subir-lhe a saia. Ela, olh'ós miúdos. Eu a acabar o último verso. O telefone a tocar. Os putos aos berros. o peixe a esturricar no carvão. E ela um AI - contido.

Mas não. Vou vender solas de sapatos. Às vezes as coisas são como procurar estações de rádio no meio da serra: um jeitinho a mais para a esquerda e...tchhhhhhhhhhhhhh

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012