'Noite Escura', de João Canijo
Coisa muito rara, um bom filme português. Melhor, o filme de João Canijo é talvez o primeiro exemplo de que me lembro de um filme português sem aquela imagem que parece ter mofo (será que só se trabalhava com película estregada neste país?) e com bom som (aliás, uma excelente sonoplastia), ou seja, com aqueles aspectos técnicos que são 'standard' nos filmes americanos mas cuja falta distrai, confunde e irrita o espectador. Em 'Noite Escura' podemos assim ver o filme 'normalmente', sendo que passado algum tempo - imagine-se! - até nos esquecemos que o filme não é americano. Portanto, João Canijo e a sua equipa ficam isentos de ir para o Campo Pequeno quando a revolução no cinema português chegar. O que não é dizer pouco, acreditem.
Quanto ao filme propriamente dito, podia chamar-se Tragédia na Casa de Putas, o que volta a uma tradição recente do cinema nacional, ou seja, o degredo e os temas 'trashy', mas sendo que aqui não há concessões, nem vinganças à americana nem coitadinhas à europeia. Mais um ponto portanto. Boas interpretações também, por parte de Rita Blanco e Beatriz Batarda, e infelizemente aqui alguns dos outros actores são comparativamente inferiores. E destaco mais uma vez a realização excelente de João Canijo, que consegue recriar todo o ambiente claustrofóbico do bar de alterne muitíssimo bem (o filme utiliza abundantemente os planos apertados sem que demos por isso).
Falta-lhe apenas alguma coisa, talvez melhores interpretações por parte de alguns actores, talvez um enredo mais rendilhado, mas aqui está um bom filme. Nota: 4/5