O desprezo
«o que é que fizemos nós?» - a frase latejou mais uma vez na minha cabeça.
Assim à face da estrada um Ford Escort bordeaux. Baço. Enfiado debaixo de uma ramada seca e uma venda. Abrandei tanto que a Fiat Ducato amarela que me seguia apitou - vendia "piscinas para o seu conforto e prazer" - li eu quando ela me passou. Que ironia - é Dezembro.
A Fiat era de um amarelo limão, deslavado. O Ford era baço. O tempo encarrega-se destes pormenores. Parei e fui à venda. A Fiat foi vender piscinas para Acapulco, decerto. Eu fiquei em Tibães. O sol já alaranjou o céu e daqui, ao lado do Ford Escort pronto para entrar na venda, vejo os viadutos novos da Auto-estrada para Bragança. São gigantes tabuleiros apoiados em pilares altíssimos que rasgam de lés a lés a paisagem. Parecem-me frágeis pernaltas. Mais tarde vão-me parecer tão imponentes como Sagrada Familia quando os cruzar por baixo. Então nessa altura vão-me lembrar mamutes. Não sei porquê. As casas esmigalhadas por estes mamutes parecem pedir clemência a este novo deus de betão. A engenharia faz-me vergar. Faz-me desejar mais o canal do Panamá que o Partenon de Atenas. E tive vertigens como quando estive na Barragem de Salamonde com o pai. "Vês filho, isto é que é uma barragem" - O que fizeste à Toyota Corolla côr de laranja, papá? - Perguntei-me eu como se perguntasse ao meu pai agora.
Entrei na venda e todas as embalagens e produtos, pareceram-me terem o mesmo tempo resignado. A luz fluorescente tão percária, mais e mais tornava as coisas postiças. - Queria um CAPRI-SON. - Pedi eu. Esta venda não poderá ter outra coisa senão CAPRI-SON. E restaurador OLEX. E pasta dentífrica COUTO. E bolachas Wafles de baunilha da NACIONAL. E chocolates REGINA. E pudim BOCA-DOCE. E caramelos e pirulitos que se colam aos dentes. E a velha pútrida cheirou-me a insectícida DUM-DUM.- E queria um bloco de notas CASTELO e uma esferográfica BIC. Cristal. Se faz favor - Decerto que esta velha tem uma televisão a preto e branco com um filtro verde por cima para não fazer mal aos olhos.
«o que é que fizemos nós?» - a frase latejou mais uma vez na minha cabeça.
Nem CAPRI-SON, nem pirulitos. Só SONASOL e PANTENE e LIPTON ICE TEA e KINDER BUENO como todos os mini-mercados, super-mercados, hiper-mercados, mega-mercados de outro sítio qualquer. Fim de ilusão.
Só o Ford Escort. Baço. Bordeaux. Que me faz lembrar o Vasco Gonçalves em cima do tejadilho a gritar : "Quem me quiser matar que me mate agora!!"
Só mesmo aquela àrvore carregada de dióspiros, despida, vais estar exactamente igual pr'o ano e pr'o ano e pr'o ano - até que tombe de vez, que também cansa dar todos os anos dióspiros. Esperar que eles apodreçam e caiam. E depois outra vez e outra vez e outra vez.
De resto as coisas vão sozinhas, umas por cima das outras, trocando a ordem das letras para formar novas palavras.
«o que é que fizemos nós?»
Meti-me no meu VW Golf 88 e cruzei os viadutos que me fizeram lembrar mamutes. E as casas esmigalhadas pedindo clemência ao diabo que não lhe caiam os mamutes em cima. E a frase a latejar na minha cabeça «o que é que fizemos nós?». E a minha vontade de ir para Capri. E a Brigitte Bardot a perguntar-me: "gostas das minhas pernas?" - e eu, claro que sim. E depois uma nova estação de serviço da Galp e a Brigitte agora está velha e seca e chata como a putaça. Se soubesse antecipadamente das coisas, tinha seguido a Fiat Ducato para Acapulco e ajudava-a a montar piscinas para o meu conforto e prazer. Estragaram-me as surpresas, foi isso.
- O que é que fizemos nós, como assim? Fodemos. Fodemos com todas as letras. Querias promessas para o natal? Querias que fosse algo especial? Podes ainda se quiseres, mudar a ordem das letras e chamar-lhe o que quiseres; para mim será sempre foder. Podes é foder de mil maneiras. Mas Foder, foi o que foi. Fim das tuas ilusões e das minhas. O Vasco Gonçalves já não está em cima de tejadilho nenhum. O tempo não pára, não me faças ser redundante.
O que fizemos nós? fodemo-nos.