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Auto-estradas das Classes

'T3nt' — 18.01.2005

Nunca tinha olhado para as auto-estradas, ou, vias rápidas como um reflexo da nossa sociedade.
Uma auto-estrada divide-se em 3 faixas. Mais ou menos a mesma divisão da nossa sociedade em classes. Classe alta, classe média e classe baixa.
O engraçado de se constatar é que cada classe ocupa uma faixa distinta no que a vias rápidas diz respeito.


A faixa da esquerda (sem conotações politicas), é geralmente “ocupada” por Audis e Bms. É raro o caso do carro que circula nesta faixa que custe menos de 5.000 contos. Existem os penetras, que se dividem em dois: O pessoal das estafetas e das entregas. E os penetras propriamente ditos. Os do Saxo Cup e outros derivados do “chunning”, perdão, “tunning”. Estes não têm bons carros, mas aspiram a ter e a pertencer legitimamente à classe dos da faixa da esquerda.
É complicado, para aqueles que não pertencem a esta faixa, “penetrar” e manterem-se lá por muito tempo. Mesmo que seja só para efectuar uma ultrapassagem. Assim que tocamos com uma rodinha na faixa da esquerda para ultrapassar uma Appe 50 levamos logo uma “flashada” de máximos a avisar-nos que não pertencemos àquela faixa. A faixa do meio tem um bocado de tudo. Os carros caracterizam-se por terem as cilindradas compreendidas entre os 1400 e os 1000 centímetros cúbicos. O aspecto visual é: “tunning”; “chunning” e “as if I really care”. Esta faixa é o habitat natural dos Seats Ibiza, Volkswagens Polo e Peugeots 206. O grande problema desta faixa, pela qual nutro um natural carinho visto que tenho um Seat Ibiza, são os velhos. Os velhos pah!!! A verdadeira praga das estradas portuguesas. Aqueles que vão o caminho TODO, independentemente do tamanho do percurso, na faixa do meio a uma velocidade média de 60 Kmh! Será que alguém os avisa que existe uma faixa mais à direita? Eu agradecia!
Por fim temos a faixa da direita. Carro com cilindrada superior a 1000cc, direcção assistida, airbag, alguns isqueiro até, é um sacrilégio! Esta faixa é normalmente povoada por carros velhos e decadentes, em que “tunning” é sinónimo de: falta de tinta e de preferência com ferrugem bem à vista; Não ter tampões nas duas jantes da frente; Ter um escape que faz um barulho estrondoso, não devido a ter uma ponteira da moda, mas sim porque a panela de escape tem mais buracos que um queijo Emmental.
Digam lá se as nossas estradas não são um espelho da nossa sociedade. Quer falemos de carros, quer falemos de pessoas.

P.S.: Para aqueles que ainda apreciam as estradas nacionais e a sua faixa única, um grande abraço e continuem a sonhar!

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2013