Arquivo Cafeína

Adaptações de BDs

'Ghostboy' — 16.02.2005

Como podem ter notado, entrámos há pouco tempo na época das adaptações de BDs para cinema. Infelizmente a meu ver, os saldos têm sido quase sempre negativos em termos artísticos, ainda que no boxoffice, as receitas nunca sejam inválidas.
Sem contar com excepções ("X-Men" e "Spider-man"), as produções desta natureza falham em agradar a audiência de forma inteligente, e desconfio que seja por um simples facto: os membros envolventes e executivos nutrem demasiada atenção pela imagem e pelos efeitos especiais, as celebridades e as campanhas publicitárias, a materialização de sequências que tem lugar antes da sua justificação. E muitos dos trailers são embuscadas dirigidas ao bolso, ao entusiasmo e à boa disposição.

O superlativo dos erros, no entanto, resulta das transposições abusivas feitas entre o material original e o produto final alíegeno.
Criar um filme com leves componentes extraídas de uma BD acabava por se tornar mais um outro qualquer, protagonizado por um actor X e a actriz Y.
Traduzir uma BD painel por painel é má jogada, pois além de nada de novo trazer aos fans (embora pudesse calar a infidelidade), a BD seria uma media pobre se se apresentasse isoladamente no ecrãn. A magia dos quadradinhos vem no conceito de ser em papel, e não em movimento; ia surgir falta de material. Requer, portanto, algo mais. Esse algo mais seria uma revisão esperta da história em vez de distorções de características emblemáticas e visuais.
Há que ter truques debaixo da manga, e saber moldar a peça, escolher o que acrescentar e o que omitir. Coisa que, pelos vistos, é uma ordem inviável.

Passamos então ao "Immortel":

Nova Iorque 2095 Uma pirâmide flutua sobre Manhatan, cidade habitada por mutantes, de extra-terrestres e de humanos, reais ou sintéticos. Horus, deus com cabeça de falcão, que só tem sete dias para preservar a sua imortalidade, deixa a pirâmide para partir em busca de um corpo-hospedeiro, que lhe servirá para fecundar uma mutante e sobreviver através da sua progenitura. Encontra Nikopol, dissidente fugido de uma penitenciária, e decide apoderar-se dos seus traços para se acoplar a Jill, mulher misteriosa de lágrimas e cabelos azuis.
#via Antestreia


É um especimen pertencente a esta onda que vos acabo de vos alertar, mas ele é de raça europeia. Tal como no "Sin City" de Frank Miller, que nos chegará brevemente nas salas (cruzo os dedos), o autor da BD está a par de todo o processo da produção, sobretudo, na direcção dos actores. É de supor que, sob estas circunstâncias, o filme ganhe todos os tons certos, e neste facto não consigo mesmo opinar, visto que desconheço da trilogia "Nikopol" de Enki Bilal.

A primeira impressão foi boa. A ilustração digital dos ambientes possui uma excelência imparável em toda a duração da película, podendo até ser considerada uma personagem invisível, com o seu próprio protagonismo. Neste domínio, a Europa está de parabéns, por domar mais uma etapa com os seus talentos digitais.
Não obstante, e ancorado a este avanço, supreendeu-me ver 90% da população dessa futura Nova Yorque em formato 3D de videojogos (será o nosso futuro assim?), associando-se de súbito às cenas do jogo "Hitman". Foi a aplicação de uma tecnologia prematura, ainda incapaz de iludir o espectador da autenticidade dessas personagens. No total, encontrámos apenas quatro actores de carne e osso. Tivessem trocado o resto por actores reais, nem que fossem figurantes, acredito que podiam ter poupado trabalho e dinheiro.

Quanto à narrativa, se nela habita um significado subtil, não tive percepção suficiente para o destacar e analisar. Acho que funcionou como um quadro vivo, havendo sempre espaço para vistas suberbas, mas cometendo o erro de sedar as poucas cenas de acção que se manifestavam. Os blocos introdução, climax e desfecho foram substituídos por uma linha de serenidade, imune a qualquer adversidade (que não eram assim tão adversas...). Entretanto, alguns pormenores importantes são mantidos em silêncio, catapultando uma boa quantia de questões, como se tivesse começado a acompanhar a 2ª parte de um filme da TVI.

"Immortel" tem uma mística atraente e exalta a beleza digital. Lembra-me do "The Fifth Element", embora numa versão suave e francamente ôca no conteúdo (antítese aqueles que têm demasiado e que cumprem a mediocrice).
Se és apreciador de quadros e de ambientes, este é o lugar certo. Caso contrário, dê também uma olhadela, mas assegura de que não vás ver a sessão da meia noite.

- 3 estrelas em 5 -

(Altas Doses de) Cafeína   © E. Morais, M. J. Ruiz, R. Duque, P. Leitão, J. Morgado & autores dos demais contributos 2000-2012