A estranha cassete na minha caixa de correio
Ontem, 16 de março de 2005, recebi uma estranha cassete áudio por correio. Não faço a mínima ideia quem a mandou, e a voz nela gravada nem sequer me é familiar. Mesmo assim achei que seria boa ideia transcrever o seu conteúdo para este blog. Aqui vai:
Há duas semanas, duas semanas que viajo debaixo deste calor infernal.
Hoje, Vinte e um de maio, do ano da graça de mil novecentos e noventa e nove; cai um chuva miudinha. Uma chuva que rasga o céu laranja e deixa um cheiro a podre no ar. Uma chuva negra, vinil-abafada. Apesar da chuva, de toda a água, não deixo de suar. O suor escorre, escorre da testa até ao pescoço e das axilas até as virilhas.
Olho para a parte frontal do carro. Está salpicada, salpicada de sangue seco. Manchas escarlate que diminuem de tamanho consoante a distancia. Gotas maiores perto das barras frontais que tapam o radiador, e outras menores perto da junção do vidro com o capont.
A chuva pára.
Saio do carro.
Por toda a parte ouvem-se o tilintar das gotas de chuva, gotas que caem das árvores para o metal dos automóveis, e do metal para a terra molhada. plim, plim, poc, tlim, poc, poc.
Continua um calor abrasador.
Paro em frente do carro, virado para o vidro frontal. Meto a mão no bolso esquerdo das calças de ganga justas, húmidas, coladas contra os ossos. Procuro, tento agarrar, consigo chegar ao maço de cigarros. Ao puxa-lo para fora, a parte plástica do exterior fica presa no bolso.
foda-se, é difícil tirar coisas preciosas de dentro de merdas molhadas. E isto é assim para tudo.
O maço está ensopado. Exactamente... ENSOPADO. Assemelha-se exactamente a uma papa de sopa instantânea, semi-cozinhada.
No interior do maço, mesmo no tutano, está um cigarro parcialmente seco. Como só tenho uma mão livre, seguro na sopa de tabaco com os dedos: mínimo, anelar e médio. Sobra-me o polegar e o indicador. Com este últimos que me sobram livres, seguro no cigarro do interior do maço. Agarro-o firmemente com os dois dedos e deixo cair para o chão o resto. Ponho o cigarro na boca. Com a mesma mão, agora livre, agarro no isqueiro. Estava no bolso direito. É daqueles isqueiros verdes, com cerca de 4,5cm, e uma patilha vermelha, que, quando pressionada faz soltar o gás. O isqueiro está molhado. Com o polegar, rodo a roda dentada, a roda dentada raspa na pedra. Não se soltam faíscas. A pedra também está molhada. Aumento compassadamente o ritmo. A pedra do isqueiro aquece, seca, solta-se um faísca; milésimos de segundo depois, já o meu dedo está a perimir a patilha vermelha. O gás assobia para fora do isqueiro. Liberta-se a chama.
Nunca tinha pensado nisto, mas, aquela chama fez-me pensar. Fez-me pensar no inferno. Será que existe um inferno? Como será estar dentro da chama? Como será ser envolvido por uma chama? O que será a chama a envolver-me? A... purificar-me, a lavar os pecados. Torrentes de chamas a percorrer o meu corpo, impuro, transgressor. Penso na Joana dArc.
Aproximo o cigarro da chama, a ponta do cigarro torna-se incandescente. Puxo com força o fumo para dentro, para dentro de mim.
Estou... em frente do carro... perplexo.
Prendo o fumo dentro dos pulmões.
Olho... olho as manchas de sangue no capont. Tento imaginar, tento imaginar como seria, como seria.... o silêncio.
As moscas possam nas manchas de sangue. Procuram... chapinham... tentam encontrar bocados de carne. Tentam alimentar-se. De dentro das barras frontais saem moscas, são monstruosas. Grotescas asas com sangue, os zumbidos são ensurdecedores.
Tento não pensar nisto.....
O silêncio. O silêncio. Gostava de conseguir imaginar o silêncio.... o silêncio e as chamas. Dentro das chamas, dentro do silêncio.
Como já tinha referido, anteriormente, a minha mão esquerda está ocupada. Seguro um daqueles pequenos gravadores de mini-cassetes. Aquele tipo de gravadores utilizados pelos médicos. Para ditarem os relatórios que passam as dactilógrafas.
O meu pai era médico. Este gravador é em tudo semelhante ao que ele usava. Era neuroradiologista, o meu pai. Um daqueles médicos que olham para dentro da cabeça das pessoas, através de folhas de celulose. E as máquinas, as máquinas brancas, o hospital, como caixões.
O processo era simples. Deita-se um tipo numa máquina. Atravessa-se-lhe os miolos com um raio x, e, eis que surge um papel transparente, com um rosto cadavérico. Por vezes, no meio do rosto-carcaça-apodrecida-tom-sépia, algo de grotesco.
Quando era miúdo, costumava correr por entre estes tipos. Os tipos com tumores. Este género de pessoas, não faz outra coisa senão arrastar-se por corredores de hospitais, exibindo as suas cabeças deformadas com erupções gigantescas. Todos muito contentes por terem uma cabeça assim. Estes tipos, os das cabeças irregulares, não passam de uns exibicionistas pervertidos. Pavoneiam-se pelos corredores dos hospitais a desfilar as suas monstruosas cabeças. Antes, nos tempos do circo, estes gajos tinham o seu lugar. Nessa altura, qualquer um destes cabrões podia ser uma estrela; num qualquer freak show, de um qualquer circo underground. Claro que hoje em dia, já ninguém paga para ver estas merdas tristes. Por isso, somos obrigados a levar com eles nos hospitais. Todos eles muito orgulhosos da sua diferença. O meu tumor é maior que o teu. sim mas, o meu é maligno; já para não falar da esclorose múltipla que me corrói o sistema nervoso central Olhem para mim, olhem para mim, a minha cabeça atingiu quase três vezes o seu tamanho normal, e isto leva a minha coluna a contorcer-se ao estilo maneirista.
Por favor! Não somos obrigados a levar com isto! Estes tipos, são incansáveis, e eu que tinha que levar com eles. Grandes velhacos, velhas raposas. Mas, com tudo isto, esqueci-me do essencial. Estava a falar do meu gravador. O que é importante, não é propriamente o gravador, mas sim a razão pela qual eu o seguro sem o poder largar. Este gravador tem quatro botões. Três pretos e um vermelho. Apesar de gravar na perfeição, está estragado. Um dos botões, o vermelho, por alguma anomalia, que eu não consigo precisar, não fica preso. Ora se este botão não estiver primido, nada fica registado nesta cassete. Dai, eu, com a minha mão esquerda ter que segurar o botão vermelho e o gravador.
Neste momento já estou dentro do carro. Deito fora, pela janela, o cigarro; e, abro o porta luvas. Dentro deste porta luvas guardei um presente para mim mesmo.
Depois Ouve-se um barulho forte, uma pistola suponho, em seguida a gravação acaba.
Sérgio Brás d'Almeida