Arquivo Cafeína

Rescaldo dos Oscares

'CatsilkEnglar' — 03.04.2005

Após muito tempo de ausencia, volto á escrita com um artigo sobre um dos meus temas predilectos - o cinema.
Como o acontecimento cinematográfico mais marcante dos últimos tempos foi mesmo, quer se queira, quer não, a cerimónia de entrega dos Óscares. Pessoalmente, penso que foi uma das mais equilibradas e bem distribuidas das últimas edições, embora a descriminação do Scorsese seja uma coisa terrivelmente incompreensivel.

Falando dos filmes em si, acho que o grande filme do ano foi mesmo o Million Dollar Baby, pelo que mereceu o oscar de melhor filme. Nesta obra Eastwood prova que é um dos melhores realizadores contemporaneos ao assinar o seu melhor filme. A pelicula é fantástica, com uma história simples de um homem empedrenido pelo passado e que procura redenção, de uma boxeur pobre que rapidamente ocupa um lugar de eleição junto ao coração do seu treinador, substituindo o lugar da filha deste. a história é sobre os laços humanos, a criação destes. Tema muito caro aos realizadores clássicos como Houston ou Ford. é de facto uma aproximação aos clássicos o que Eastwood consegue aqui,criando um filme simultaneamente simple e poderoso.

Também questões éticas são aqui levantadas, sobre a hipocrisia das familias, a verdadeira natureza do amor e em última instãncia, a dignidade humana face à presença de uma morte libertadora. por tudo isto, considero Million Dollar Baby como o grande e justo vencedor.

No capitulo das interpretações, a coisa também foi bem distribuida. Morgan Freeman tem um dos seus melhores desempenhos dos últimos tempo; Hilary Swank também. esta última mostra-nos a grande actriz que é - versátil, pois então. Cate Blanchet consegue um retrato inquientante de tanta similitude de Katherine Hepburn e é no filme uma presença que enche o ecrã, e nos enche a alma.

Quanto ao actor principal, confesso que não vi Ray, mas que sei por outras vias que o seu papel é retrato fisico desconcertante de Ray Charles, pelo que não me alongo mais nesta matéria.
Na realização as coisas complicam-se. Continuo sem perceber o porquê do ódio ao Scorcese. Embora "O Aviador" não tenha o portento dramático de Million Dollar Baby, não deixa de ser um filme muito bom.DiCaprio faz engolir sapos a muito boa gente, pois o seu desempenho é mesmo muito bom. A fotografia é muyito boa também. Contudo, a grande vantagem desta obra de Scorcese é mesmo a realização, que, segundo o que li em qualquer lado "não deixa ninguém indiferente". As opções estéticas, a reconstrução épica, a escala "larger then life" a que Scorcese já nos habituou, mereciam este ano, bem porque não aconteceu (e devia ter acontecido) em "Gangs de Nova Iorque", ser premiados. A originalidade scorseseana é deveras inimitável e este homem que foi, simultaneamete cineasta culto, polémico e moderno, já merecia que uma carpete vermelha se estendesse a seus pés, uma vez que há largos anos nos tem oferecido cinema de eleição. Uma pena.

Nas categorias técnicas, nada tenho a apontar, pois tudo foi muito bem entregue.
O filme de animação vencedor não constituiu surpresa.
Mazinhas foram as músicas nomeadas e a premiada não se demarcou da qualidade inferior de todas as outras.

Num ano de colheitas tão bom, com filmes tão preciosos como Closer ou Sideways, devo dizer que desta vez a academia esteve de olhos abertos para o novo cinema alternativo, ao nomear Eternal Sunshine of the Spotless Mind para duas ou três categorias e por lhe ter entregue o muito muito merecido óscar para melhor argumento original. Desta vez, Charlie Kaufman não viu escapar-lhe o oscar que o coroa pela sua originalidade, demonstrada já por tantas vezes.

Finalizando este artigo, declaro-me amplamente satisfeito com os óscares deste ano e espero que para o ano tenhamos mais do mesmo.

Over and out.
CatsilkEnglar was here.

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