Aquele Querido Mês de Agosto
Por uma vez vou escrever sobre cinema com a intenção de tecer rasgados elogios. E ainda por cima, aquilo a que tenciono tecer rasgados elogios é um filme português. E não, não estarei a ser cínico. O filme chama-se Aquele Querido Mês de Agosto e foi realizado por Miguel Gomes.
Os mais antigos leitores do Cafeína, ou os meus amigos que me conhecem há mais tempo e tomam atenção a aquilo que digo (será que existem?), interrogar-se-ão: “Miguel Gomes!? Mas esse não era o gajo?…” Sim, o Miguel Gomes era um dos gajos na minha lista negra pessoal de realizadores portugueses, graças a curtas-metragens como Ménage-a-Trois na Quinta da Marinha (aliás, Entretanto) e Miúdos com Olhos Manga à Solta na Expo (aliás, Kalkitos), que na verdade continuam a ser objectos do meu mais profundo desprezo. Foi por isso que quando soube que vinha aí uma longa-metragem de Miguel Gomes, limitei-me a torcer o nariz. No entanto, eis que vejo o cartaz, que até tinha pinta. Depois vi o trailer, que até tinha bom aspecto. E um making-of, na RTP2, que achei interessante. Fiquei assim na situação desagradável de ter que ir ver o raio do filme para poder continuar a dizer mal.
E ainda bem que fui, mesmo dando a mão à palmatória: Aquele Querido Mês de Agosto é um bom filme, e aos meus olhos uma redenção em estilo para o Miguel Gomes. Sem ser revolucionário (olhando para a História do cinema), o filme faz mesmo assim um exercício raro: é um três-em-um que combina 1. uma historinha de amor ficcional, 2. um documentário sobre as festas de Agosto nas aldeias beirãs, e 3. o making-of de uma historinha de amor ficcional. É uma sopa de tudo, mas que tal como as sopas da avó da aldeia, consegue ser extremamente apetitosa (aliás, estou a salivar abundantemente enquanto escrevo) mesmo contendo todos os ingredientes do mundo.
Aquele Querido Mês de Agosto não é um filme perfeito. Embora as suas duas horas e meia não tivessem chegado a chatear, houve alguns momentos em que se aproximou, perigosamente, do limiar do Enchido. E aquela treta de “não querer actores, querer pessoas” é uma forma tão superficial e falaciosa de entender a questão que enjoa - e o resultado vê-se: há no filme pessoas que até são bons actores perante a câmara, mas também há no filme pessoas que são péssimos actores, com um resultado confrangedor. O que vale é que, sendo o filme a tal sopa de tudo, até as más interpretações encaixam sem distrair muito.
E este é a meu ver o aspecto mais importante: Aquele Querido Mês de Agosto é tão transparente em relação ao Processo, tão descomplexado a exibir o próprio Miguel Gomes no seu papel como Director do Filme (por oposição a uma qualquer concepção heróica de Realizador) e a demonstrar a importância decisiva do resto da equipa, que se assume como uma verdadeira Obra Colectiva, por oposição a esse conceito canceroso que é a Obra de Autor. Com isto, Miguel Gomes e os restantes criadores e produtores conseguiram dar uma machadada naquele preconceito do Autor/Génio/Mestre/O Caralho que o Foda, que dá origem a toda uma séries de vícios - Cartas Brancas, Listas Negras, todas as manias de que se é da Alta Cultura, por oposição a uma suposta Baixa Cultura - e a toda uma série de Medos… Não será uma machadada final, já que os reaccionários ainda saem das portas das escolas de cinema, ou em maioria ou em ruidosa e irritante minoria, mas é sem dúvida um passo na direcção certa, dado ainda por cima por um antigo crítico do Público: O que interessa é a Obra, não é a Assinatura.
Aconselho vivamente este filme, que merece o máximo de espectadores que conseguir. Para que quem decide sobre os subsídios entenda que não podemos continuar com um cinema cheio de Tretas. Essas, e as outras…